Os filhos do abandono
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de julho de 2007
André Amorim<br>Equipe da Folha 
Em um artigo de 1997, a doutora em psicologia experimental Lídia Weber, compara a situação de abandono das crianças de rua ao conto infantil ''João e Maria'', dos irmãos Grimm. Na história, os jovens são abandonadas na Floresta Negra pelos pais, que não têm condições de criá-los. Acabam sendo atraídos para uma casa feita de doces onde mora uma bruxa que pretende devorá-los.
A metáfora é adequada. A situação da grande maioria das crianças que hoje perambulam pelas ruas de Curitiba é semelhante a dos protagonistas da fábula. Entregues ao mundo por pais que não têm condições financeiras para criá-las, são atraídas para a vida da rua, onde a droga, a marginalidade e a falta de limites se confundem com a liberdade e acabam devoradas pelo mundo. Se a historieta tem final feliz - os irmãos jogam a bruxa no fogo -, é apenas aí que a realidade diverge da fantasia.
Segundo dados do último diagnóstico da Fundação de Ação Social (FAS) da Prefeitura de Curitiba, finalizado em março deste ano, existem 172 crianças entre 7 e 17 anos nas ruas da cidade. Alguns moram mesmo na rua, outros voltam para casa apenas para dormir.
Na maioria das vezes, a relação desse público com a família é precária ou inexistente, marcada por episódios de violência e abandono. Em outros casos, os pais incentivam as atividades de mendicância, pois acabam sendo beneficiados com isso.
Em qualquer dos casos, o futuro desses jovens é incerto. Muitos não chegam à idade adulta e os que chegam têm grandes chances de repetir a mesma senda quando tornarem-se pais e mães.
Na opinião da coordenadora de Programas de Média Complexidade de Proteção Social da FAS, Marisa Mendes de Souza, muitos jovens não têm interesse em deixar as ruas. A realidade da droga e da ausência de disciplina é atrativa e viável, já que conseguem sobreviver com doações de comida e dinheiro. ''Quando a população dá esmolas, mantém a criança na rua'', argumenta.
Durante a infância, as preocupações são muito imediatas, meninos e meninas contentam-se em conquistar o suficiente para sobreviver um dia de cada vez. Sem preocupações futuras, o caminho que muitos percorrem é o uso cada vez mais frequente de drogas, a criminalidade e a prostituição.
Resgate - Para interromper este processo, existem propostas de acolhimento e retorno familiar desenvolvidas pela rede social da prefeitura. O programa Criança Quer Futuro aborda a população infanto-juvenil nas ruas e as encaminha a atividades educativas durante o dia e a um dos 56 abrigos oficiais ou conveniados da FAS, durante a noite.
Nos espaços diurnos, os jovens que perderam contato com a família ficam predispostos à adoção. Os mais velhos frequentam cursos profissionalizantes, enquanto os mais novos voltam às atividades escolares.
Segundo Eliana Oleski, coordenadora da Central de Resgate Social da FAS, a porcentagem de adoção é muito pequena, a intenção maior é que os jovens retornem aos seus familiares. Em 2006, foram atendidas pelo programa 150 crianças, deste total, estima-se que 24% voltaram à família.
Para esse regresso ser considerado efetivo, a criança precisa voltar às aulas e a família é acompanhada por assistentes sociais da FAS. Para garantir a segurança das crianças de rua de Curitiba, existe uma rede de proteção intersetorial formada pelo poder municipal, Delegacia da Criança e do Adolescente e Conselho Tutelar. Esse último pode intervir toda vez que uma criança corre risco social - seja por omissão do Estado, dos pais, ou pelo risco que traz a si própria.
No entanto, em qualquer um dos casos, não é possível manter a criança abrigada contra sua vontade. É preciso convencê-la que a vivência na rua não lhe levará a lugar algum e fazê-la abdicar da droga e da falta de limites que esta vida propicia. Uma batalha difícil de ser vencida na opinião de Marisa de Souza. ''É uma concorrência desleal, no abrigo tem hora pra comer, pra dormir, não pode usar droga, enquanto que na rua eles fazem o que bem entendem'', explica.


