Os efeitos são imediatos
Quando o mestre de Swásthya yôga Sérgio Santos fala sobre os indianos, lembro imediatamente do velhos samanas do ''Sidarta'', de Hesse. Com belas imagens, combinando a determinação e fúria da personagem principal, Hesse cita a respiração: ''Já sabia pronunciar o Om, a palavra das palavras; sabia dizê-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e proferi-lo, silenciosamente, para fora, ao expelir o ar, com alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do Átman, indestrutível, uno com o Universo''. ''Átman'' é traduzido literalmente como ''fôlego''. Representa a energia vital, a personalidade, o eu, a alma e o princípio da vida.
Era isso que eu buscava naquela aula? Talvez. Desse momento em diante, meu corpo, meu pulmão, meus membros, começam a sentir o poder dos exercícios. É o Uddiyana Bandha. Sentados, com as mãos nas pernas, somos estimulados a soltar todo o ar do pulmão e contrair o abdômen. Mestre Sérgio Santos dá um aviso ao qual não me atento: ''Os efeitos terapêuticos do yôga são imediatos''. Não dou bola, ignorante; estou mais preocupado em acertar a forma como se respira.
Mestre Sérgio ensina que a respiração pode ser dividida em quatro partes: baixa, média, alta e completa. Em todas, o diafragma tem papel fundamental, controlando a respiração. Para mostrar a respiração completa, mestre Sérgio se deita no chão e começa. Primeiro infla a barriga, na altura do umbigo, depois na altura das costelas e por fim do peito. Ele começa a se encher de ar de um modo impressionante, como nunca imaginei que pudesse acontecer. Infla feito um balão, como ele mesmo diz, e fico esperando, abismado, o momento em que irá flutuar. Seu corpo ficar enorme.
Somos estimulados a fazer o mesmo. Tento. Primeiro acerto, depois erro. Assim sigo todos os exercícios, em uma luta contra minha inexperiência e incapacidade de dominar meu próprio corpo, minha própria respiração. Penso que a ingnorância é algo monstruoso. Depois de respirar por algumas minutos a respiração completa, sento-me. Sinto uma leve pressão na cabeça, algo que se parece com uma dor mas que não pode receber este nome. É como se não houvesse ar na minha cabeça e ela estivesse vazia (agora, relendo essa anotação, rio-me da metáfora que escrevi logo depois do exercício: ''... como se não houvesse ar na cabeça''). Posso chamar de dor o que sinto no abdômen e no peito. Meu pulmão, porém, sinto-o um pouco mais limpo.
Mestre Sérgio diz que a respiração baixa, feita com a barriga, é a mais importante de ser realizada em momentos de tensão, funcionando quase como um calmante. Quase não ouço - atitude que reconheço como ignorante, negando tudo o que me propus no início da aula. Estou mais interessado na percepção de meu corpo. Sinto partes que sabia que existiam, mas nunca tinha me atentado. A constatação de que não conheço partes do meu físico me amedrotam ao mesmo tempo que fascinam. (T.A.)





