Os doutores da elegância
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de abril de 2007
Luciana Pombo<br>Equipe da Folha 
Ao entrar num shopping, o consumidor se depara com dezenas de opções de lojas de vestuário. Das mais comuns (que vendem camisetas e calças jeans) até as mais sofisticadas (que buscam vestidos finos e ternos masculinos). O mesmo ocorre na região central. Ao atravessar a Rua XV, são inúmeras as lojas que vendem roupas com preços acessíveis - e ainda parcelam em até seis vezes, sem juros. Mesmo com a facilidade de comprar roupas variadas, o curitibano de classe média alta ainda busca o vestuário sob medida. São mais de 130 alfaiates na capital paranaense, que tentam vender qualidade - mesmo que com preços menos acessíveis.
O alfaiate Ferdinando Nardelli tem 71 anos. Há 47 anos, ele faz belos ternos com tecido italiano dentro do Edifício Tijucas, no Centro. ''A vantagem é que o terno sai exatamente do jeito que a pessoa quer'', disse o alfaiate, especializado em roupas masculinas. Nardelli atende vários políticos do Paraná. E diz que se sente realizado: profissionalmente, financeiramente e sentimentalmente. Tem três filhas. Todas casadas e formadas. A escolha por ser alfaiate ocorreu quando tinha 15 anos. Filho de lavrador, Nardelli tinha 14 irmãos. Um dia, o pai pediu que todos fossem buscar uma profissão -porque já não conseguia sustentar todos os filhos. ''Eu chorei e não quis contrariar meu pai. Busquei uma profissão e me tornei um profissional da tesoura de tecido. Um irmão meu veio trabalhar comigo. Mas ele já morreu. Acabei me saindo muito bem'', contou o alfaiate.
Nardelli confessou que a concorrência fez com que o movimento reduzisse na alfaiataria. Mas os profissionais tiveram que se especializar ainda mais. ''A concorrência da roupa feita é grande. Mas quem gosta de se vestir bem, ainda procura o alfaiate. Aqui, o manequim é adequado ao modelo''. Um terno simples que é comprado por R$ 200 na cidade pode ser confeccionado por R$ 600.
Dependendo do tecido (o italiano, por exemplo), o preço pode chegar a R$ 2,5 mil. ''Não sou o mais barateiro, nem o mais careiro. Mas faço tudo com dedicação''. Somente a mão de obra para um terno custa R$ 450. ''Tem gente que vem pedir que a gente ajuste o terno que comprou mais barato no comércio. Acaba saindo mais caro para o cliente. Os ajustes são como uma reforma. Demanda tempo e paciência''.
O alfaiate já pensou em trabalhar menos. Poderia morar na casa que tem em Balneário Camboriú (SC) ou ir para a fazenda em Campo de Tenente. Mas não consegue. ''Os meus clientes me ligam e pedem que eu venha trabalhar, quando penso em descansar. Não me furto a vir. Tenho clientes de todo o Brasil. Não consigo deixá-los'', disse. São clientes de Curitiba, do Norte do Paraná, Santa Catarina, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. O trabalho de Nardelli garantiu que ele conseguisse visitar 17 países diferentes (11 deles na Europa). ''Sou alfaiate de corpo e alma''.


