Os diccionarios, a novíssima gramática e os sebos
Com meu míni Aurélio, comprado em 2005, em mãos, fui aos sebos do Centro da cidade. Pagariam menos por ser de edição anterior ao acordo ortográfico? Nas livrarias, a nova versão do dicionário está sendo vendida a R$ 33. Primeira parada, Livraria e Sebo Kapricho, Rua Comendador Araújo. ''Isso aí (o Novo Acordo Ortográfico) tá um troço'', exclama o funcionário Messias Gonzaga, 37, em sebos desde 2001 e há 21 anos trabalhando com livros. Pagaria R$ 6 no meu míni. É a lei dos sebos, ele explica. Um terço do valor de venda em dinheiro ou metade no caso de troca. O volume vale R$ 18 na Kapricho.
Um ou outro pergunta por dicionários já acompanhados de pinguim e autoajuda. ''É um complicador a mais para completar a lista escolar.'' Sim, as escolas pedem pelos materiais atualizados com o novo acordo. Triste do desatento que comprar a Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, de 1971 (R$ 10), ou a 5 edição de Gramática Portuguesa, de 1942, de acordo com ortografia regulamentada em 1938. Este último custa R$ 5. Em meio às antiguidades estão o Michaelis escolar (R$ 18) e o Míni Dicionário Prático (R$ 8), ambos com as novas regras. As páginas brancas sem quaisquer marcas de utilização dão a dica: o sebo faz parte da safra recente, uma mistura entre livraria de usados e ponta de estoque de novos.
Uma pilha com 15 livros zero bala da Nova Gramática do Português Contemporâneo está ali, à disposição, cada um por R$ 30. Quem quiser pagar pela versão com as novas regras, terá de desembolsar R$ 75, por enquanto só disponível nas livrarias. Do aprendizado de sete anos em sebos, Messias ressalta que por mais esquisito, esdrúxulo ou diferente, o livro tem seu comprador. Dia desses, ele lembra, um senhor saiu de lá com um punhado de gramáticas e volumes antigos sobre a língua portuguesa. E tem mais. Se os livros didáticos disponíveis nos sebos ainda apontam Coréia e enjôo, seguem tendo seus compradores. Os motivos são variados. ''Um amigo meu, o Áureo, comprou um curso de matemática de 1961 para mostrar para o filho: 'Eu estudei com isso''', exemplifica.
A poucas quadras dali, na Fígaro, na Lamenha Lins, em funcionamento desde 1989, o Novo Acordo Ortográfico ainda não chegou. ''O meu negócio é o velho mesmo'', explica logo de cara o dono, Paulo José da Costa, 58. Ele divide os tipos de negócio em três: livrarias, sebos e pontas de estoque. Acusa os últimos de concorrência predatória em relação às livrarias. ''Mas não afeta o meu negócio. Meu produto é diferenciado, vendo livros de 1920, 1930.'' Sem esconder o orgulho, cita o Diccionario Contemporaneo da Lingua Portuguesa, ainda do século XIX, como um dos títulos à venda. Costa contraria a regra geral do sebos e estabeleceu a sua própria. Afirma pagar de 40% a 50% sobre o valor de venda e de 50% a 60% em caso de troca. Sobre o Novo Acordo Ortográfico, ele é direto. ''Não afetou em nada até agora. Até mesmo porque sebo é um lugar para venda de livros antigos e usados.'' E conclui. ''Quem vem aqui não está preocupado com isso.'' Em sua opinião, sebos de verdade, como o dele, só sobraram uns três na cidade.
Um deles é a Feira dos Livros Usados, na Rua Emiliano Perneta. Fundado em 1942, é o mais antigo em atividade em Curitiba. Lá, a trema ainda prevalece. Mas local de venda exclusiva de livros usados é mesmo exceção. As pontas de estoque estão na moda. E o kit do Michaelis escolar que acompanha guia de redação e CD reina soberano. No antiquário Sebomania, em frente ao sebo de mesmo nome na Rua Emiliano Perneta, uma pilha deles está logo na porta. Apesar da placa, ''Dicionários Novos, de R$ 30 por R$ 15'', os livros são do velho acordo.





