Os contos de fada sem Freud
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de abril de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Minha filha, como todas as crianças, é apaixonada por histórias. Mas tem uma mãe estranha, que modifica o final dos clássicos infantis por conta própria. Sempre omito, por exemplo, o ''foram felizes para sempre''. Outro dia, contando a história da Branca de Neve falei que o príncipe apareceu, beijou a Branca de Neve, eles se conheceram e começaram a namorar. Fim. Achei que estava tudo bem, até ela decidir: ''Mamãe, eu queria namorar você.'' Tive que explicar que mãe e filha não podem namorar. ''Então eu vou namorar meu pai.'' Pois é, filha, também não pode, pais e filhas também não namoram, mas quando você crescer, vai encontrar um garoto bem bacana pra namorar. Espero.
Minha filha tem só três anos. Acho correto explicar sobre as relações e não é muito cedo para revelar que as pessoas namoram, sim. Se a mídia oferece excesso de informações sobre sexualidade é outro assunto, mas acho que sempre os pais podem escolher o que mostrar ou não. No que diz respeito aos contos de fadas, que atravessam séculos e gerações, sempre achei que não encontraria problemas. Mas na fase dos ''porquês'', a menina quer saber o motivo do lobo ter comido a vovozinha (não adiantou mudar para ''escondeu dentro do armário'', ela viu outra versão nos livros), a rainha queria matar a Branca de Neve e o pior, o motivo da menina não ter mãe.
Tento driblar, mas a falta de uma orientação psicológica 24 horas me deixa na mão e nem sempre sei o que responder. Na Páscoa, por exemplo, o coelhinho apareceu durante a noite e deixou as marcas de suas patas no quarto dela e um longo caminho até a cestinha de ovos. Ela adorou, mas a noite relutou a dormir. E se o coelhinho aparecesse novamente durante o seu sono? Medo. Contornado o problema, voltamos a história da Branca de Neve. E ela tirou suas próprias conclusões: ''Quando eu crescer eu vou conhecer um menino para namorar. E ele vai ser um príncipe.'' Será? Por enquanto, é melhor dizer que sim.


