Os cinco anos de falência da Encol
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sábado, 27 de março de 2004
Alan Maschio<br>Reportagem Local 
Uma das maiores frustrações que o consumidor pode enfrentar é a perda total ou de parte de um sonho que custou vários anos de trabalho, como a compra de um apartamento ou a conquista de um bom emprego.
Essa perspectiva sombria invadiu as casas de pelo menos 65 mil brasileiros de uma só vez, no ano de 1999, marcado pela falência da maior construtora civil do País até então: a Encol.
A quebra da gigante da construção é considerada até hoje por juristas como o maior processo de falência já administrado pela Justiça do Brasil. O dia 16 de março marcou os cinco anos do decreto de falência. Até 1999, a Encol dava andamento a pelo menos 730 empreendimentos espalhados por 23 Estados. Seus 23 mil funcionários, de forma geral, eram considerados bem empregados pela sociedade, e o arrojo nos empreendimentos era uma das marcas da construtora. Estima-se que até o ano da quebra, a Encol faturava aproximadamente R$ 1 bilhão ao ano.
De acordo com informações do site gerado pelos administradores da massa falida da Encol, os problemas da empresa começaram oficialmente em 1997, quando diretores da construtora, entre eles seu presidente, Pedro Paulo Souza, teriam iniciado um processo de desvio de dinheiro para o exterior por meio de contas CC-5. Com as contas em atraso, a diretoria da Encol resolveu pedir concordata, em novembro de 1997. Inicialmente, o Ministério Público de Goiânia cidade-sede da empresa manifestou-se contra o pedido, que no entanto foi deferido pela Justiça.
A situação da empreiteira piorou no ano seguinte. Pedidos de alvarás judiciais para a venda de imóveis se sucederam, e finalmente a falência foi requerida, em dezembro. A diretoria justificou a quebra com o atraso do primeiro pagamento agendado aos credores, que deveria ser feito em novembro.
A falência foi decretada em 16 de março de 1999. O rombo nos cofres da empresa estimado para a época era de R$ 2,5 bilhões, o que equivale hoje a um valor superior a R$ 15 bilhões. As dívidas com o INSS podem chegar aos R$ 327 milhões. Ao longo dos últimos cinco anos, 17 mil processos contra a empresa foram iniciados. Os seis milhões de metros quadrados de construções inacabadas deixaram na mão pelo menos 42 mil mutuários por todo o País, incluindo da cidade de Londrina, onde a construtora interrompeu as obras de mais de 10 prédios.
A própria administração da massa falida da Encol, conturbada e transitante, expõe as dificuldades jurídicas pelas quais a empresa passa. Nos cinco anos de falência, a Justiça de Goiás indicou pelo menos seis síndicos (responsáveis pela administração e localização de bens para leilões), dois dos quais recusaram. A presidência do processo de falência também já passou pela mão de dois juízes. Hoje, o advogado Ovanir Andrade é o síndico da massa falida.
O ex-presidente da Encol, Pedro Paulo Souza, vive em Goiânia, onde, supõe-se, presta assessoria a construtoras. Informações publicadas na revista ''Dinheiro'', em 2002, dão conta de que ele tem uma vida simples. Vive na casa de um irmão, pois praticamente todos os seus bens foram confiscados pela justiça. O dirigente alegou em entrevista à ''Dinheiro'' que a empresa teria sofrido com distorções provocadas pelo Plano Real, pois os juros cobrados pela construtora junto aos clientes era muito inferior ao que os bancos praticavam. Ele não foi localizado pela reportagem da Folha para uma entrevista.


