À espera de mais uma venda, apenas uma insegurança. ''E os homi?'', perguntam os meninos que invariavelmente travam relações de ódio e temor com os policiais. Alguns chegam a questionar a própria existência dessas instituições: ''Os caras são pior que a gente. Chegam batendo, querendo droga. Nunca acreditam no que a gente fala''.

A rotina de policiamento nesses bairros periféricos segue um esquema já consolidado. Quando surgem as viaturas da Rone (Ronda Ostensiva de Natureza Específica), os meninos avisam por meio de códigos que é hora de entrar para as casas. Os incautos se vêem obrigados a firmar acordos para a manutenção do tráfico, mesmo sob tenso repúdio à polícia: ''Às vezes eles pedem droga mesmo. A gente reparte e eles ficam quietos. Tem vez que o chefe tem que pagar''.

A droga mais procurada pelos ''homi'', segundo os meninos, é o crack. ''É a que dá mais nóia (efeito da droga)''. E o número de policiais envolvidos nesse pacto de silêncio, dizem eles, é grande: ''Sempre que eles vêm é prá dar porrada ou prá pegar grana e droga''. Os que atingem policiais em confrontos diretos são geralmente mortos: ''No dia que eu ''caí'' (foi preso), acertei um policial duas vezes. Depois eles jogaram o carro prá cima de mim e juraram que eu ia morrer''.

Em alguns bairros especialmente os assentamentos, o Nossa Senhora da Paz e o João Turquino até a Rone teme entrar despreparada. Normalmente, eles entram nessas regiões em duas viaturas. Para a maior parte dos criminosos, a polícia serve apenas como mais uma ponte da grande rede. Afirmação rebatida pelo delegado-chefe da 10 Subdivisão policial em Londrina, Gilson Garret Algauer. Ele credita à polícia a falta de crimes pesados em Londrina, comuns a grandes cidades como assalto a bancos e sequestros. ''Ninguém se lembra da polícia, nem de Deus. Mas quando está correndo perigo pensa em Deus e liga para a polícia imediatamente''.

Garret não confirma a participação de nenhum policial no tráfico de drogas e informa que nenhuma denúncia formal foi feita sobre esse tipo de crime. Para ele, há apenas uma maneira de combater o tráfico: ''Não devemos investir em cadeias ou na polícia. Devemos investir em melhorias para os bairros''.

O comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar em Londrina, Rubens Guimarães, também informa que nenhuma denúncia foi feita referente à participação dos policiais no narcotráfico: ''Nesses três meses que estou à frente do batalhão, recebi cinco reclamações sobre a postura da Rone, que estaria abusando do poder. Mas ao checar as informações, percebi que a comunidade se assusta com as armas mais pesadas e acaba achando que qualquer abordagem da Rone já é abuso de poder''.

No mês passado, um policial informou ao comandante que estava viciado em maconha, foi afastado do policiamento e transferido para Curitiba. Sobre o melhor método de combater o tráfico em Londrina, Guimarães destaca a comunidade: ''Ela é a nossa melhor aliada, pois tem mais informações que a polícia''. Entretanto, em muitos bairros, os telefones públicos são estourados pelos traficantes para evitar as denúncias, confirma Guimarães.

mockup