Os berranteiros de Jaguapitã
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sábado, 18 de julho de 2009
Wilhan Santin<br> Reportagem Local 
Jaguapitã A lógica das coisas vai contra eles: as comitivas de gado já quase não existem no país, os carros de boi e seus bois carreiros, de chifres grandes, são ainda mais difíceis de se encontrar e o gado de hoje em dia vai para o abate de chifres ainda pequenos. Mesmo assim, num tempo que não lhes oferece boa quantidade de matéria-prima e nem tocadores de boi, os fazedores de berrantes persistem e sobrevivem da arte de transformar chifres em um instrumento que beira a musicalidade e que faz parte da tradição rural brasileira.
Quietinhos na tranquila Jaguapitã (Norte), de 11,7 mil habitantes, um grupo de cinco berranteiros eles já foram mais de 10 faz da cidade que é conhecida como a capital do bilhar - por conta de suas muitas fábricas de mesas para esse jogo - uma referência também na produção de berrantes. Clientes não faltam. Eles contam que mal conseguem atender à demanda de compradores atacadistas, que procuram berrantes e outros acessórios feitos de chifres, como as guampas (canecas) para tomar tereré, e saem de Jagapitã carregados, levando o produto artesanal paranaense para ser vendido Brasil afora.
Um dos mais antigos no ramo é Hugo Chedid, 66 anos. Peão por excelência e fazedor de berrantes por paixão, ele é a nostalgia em pessoa. Homem acostumado às coisas do campo, aprendeu a tirar som do instrumento de chifres ainda menino quando morava em Londrina, no Distrito da Warta, antigo ponto de pouso de boiadeiros. Mais tarde seguiu o rumo de peão e virou amansador de boi. Também capava, capturava animal perdido na invernada, fazia tudo com perfeição, gaba-se.
Um dia aprendeu a fazer berrante. Largou a vida de peão e virou artesão. Hoje, consegue fazer em torno de 40 berrantes por mês. O preço varia de acordo com o tamanho, indo de R$ 50 a R$ 150. Ah, mas se tivesse mais chifres eu conseguia fazer até 100 por mês. Chifre grande, então, é raridade, lamenta Chedid, que percorre os frigoríficos da região em busca dos chifres, que lhe custam
R$ 1,50 o quilo.
Depois, ele limpa, lustra e emenda, usando cola e buscando o encaixe perfeito de um chifre no outro para fazer as curvas e dar a sonoridade. No fim, saem instrumentos bem feitos e que não deixam nada a desejar no som para aqueles que o povo da cidade só vê na televisão. Eu sei que levam os meus produtos para o Mato Grosso, onde peões ainda usam berrante para chamar a boiada. Levam também para outros lugares. Deve ter gente que compra só para fazer de enfeite, mas o som eu garanto, o boi entende, destaca Chedid.
Alderci Pequeno Alves, 55 anos, o Alemão, também berranteiro, reforça as palavras de Chedid e destaca que os berrantes de Jaguapitã são dos melhores. Já vi instrumento que eu fiz sendo utilizado em novelas, garante. Mas como você sabe que o berrante que apareceu na telinha foi feito por ti, Alemão? Pelas emendas, nas quais eu coloco um pedacinho de couro. No restante do país o pessoal não faz isso. Tem também uns detalhes de acabamento que fazem que eu conheça muito bem o meu trabalho.
Conhecedor da arte de berrantear, ele fica todo prosa para contar que existem mais de 62 tipos de toques de berrantes e destaca que ainda tem muita gente em cima de um cavalo chamando a boiada com o som que imita o mugido do animal, apesar dos caminhões boiadeiros.
Ele só murcha quando começa a falar da dificuldade, que é a mesma dos outros colegas berranteiros de Jaguapitã: a falta de chifres. Saí daqui na semana passada e andei dois mil quilômetros procurando matéria-prima. Andei o Paraná inteiro e fui até Santa Catarina. Voltei com 250 quilos do material bruto na caçamba da camionete, conta Alemão, que consegue produzir 300 berrantes por mês. Tudo o que eu faço é vendido de imediato, finaliza.


