Jaguapit㠖 A lógica das coisas vai contra eles: as comitivas de gado já quase não existem no país, os carros de boi e seus bois carreiros, de chifres grandes, são ainda mais difíceis de se encontrar e o gado de hoje em dia vai para o abate de chifres ainda pequenos. Mesmo assim, num tempo que não lhes oferece boa quantidade de matéria-prima e nem tocadores de boi, os fazedores de berrantes persistem e sobrevivem da arte de transformar chifres em um instrumento que beira a musicalidade e que faz parte da tradição rural brasileira.
  Quietinhos na tranquila Jaguapitã (Norte), de 11,7 mil habitantes, um grupo de cinco berranteiros – eles já foram mais de 10 – faz da cidade que é conhecida como a ‘‘capital do bilhar’’ - por conta de suas muitas fábricas de mesas para esse jogo - uma referência também na produção de berrantes. Clientes não faltam. Eles contam que mal conseguem atender à demanda de compradores atacadistas, que procuram berrantes e outros acessórios feitos de chifres, como as guampas (canecas) para tomar tereré, e saem de Jagapitã carregados, levando o produto artesanal paranaense para ser vendido Brasil afora.
  Um dos mais antigos no ramo é Hugo Chedid, 66 anos. Peão por excelência e fazedor de berrantes por paixão, ele é a nostalgia em pessoa. Homem acostumado às coisas do campo, aprendeu a tirar som do instrumento de chifres ainda menino quando morava em Londrina, no Distrito da Warta, antigo ponto de pouso de boiadeiros. Mais tarde seguiu o rumo de peão e virou amansador de boi. ‘‘Também capava, capturava animal perdido na invernada, fazia tudo com perfeição’’, gaba-se.
  Um dia aprendeu a fazer berrante. Largou a vida de peão e virou artesão. Hoje, consegue fazer em torno de 40 berrantes por mês. O preço varia de acordo com o tamanho, indo de R$ 50 a R$ 150. ‘‘Ah, mas se tivesse mais chifres eu conseguia fazer até 100 por mês. Chifre grande, então, é raridade’’, lamenta Chedid, que percorre os frigoríficos da região em busca dos chifres, que lhe custam
R$ 1,50 o quilo.
  Depois, ele limpa, lustra e emenda, usando cola e buscando o encaixe perfeito de um chifre no outro para fazer as ‘‘curvas’’ e dar a sonoridade. No fim, saem instrumentos bem feitos e que não deixam nada a desejar no som para aqueles que o povo da cidade só vê na televisão. ‘‘Eu sei que levam os meus produtos para o Mato Grosso, onde peões ainda usam berrante para chamar a boiada. Levam também para outros lugares. Deve ter gente que compra só para fazer de enfeite, mas o som eu garanto, o boi entende’’, destaca Chedid.
  Alderci Pequeno Alves, 55 anos, o Alemão, também berranteiro, reforça as palavras de Chedid e destaca que os berrantes de Jaguapitã são dos melhores. ‘‘Já vi instrumento que eu fiz sendo utilizado em novelas’’, garante. Mas como você sabe que o berrante que apareceu na telinha foi feito por ti, Alemão? ‘‘Pelas emendas, nas quais eu coloco um pedacinho de couro. No restante do país o pessoal não faz isso. Tem também uns detalhes de acabamento que fazem que eu conheça muito bem o meu trabalho’’.
  Conhecedor da arte de ‘‘berrantear’’, ele fica todo prosa para contar que existem mais de 62 tipos de toques de berrantes e destaca que ainda tem muita gente em cima de um cavalo chamando a boiada com o som que imita o mugido do animal, apesar dos caminhões boiadeiros.
  Ele só murcha quando começa a falar da dificuldade, que é a mesma dos outros colegas berranteiros de Jaguapitã: a falta de chifres. ‘‘Saí daqui na semana passada e andei dois mil quilômetros procurando matéria-prima. Andei o Paraná inteiro e fui até Santa Catarina. Voltei com 250 quilos do material bruto na caçamba da camionete’’, conta Alemão, que consegue produzir 300 berrantes por mês. ‘‘Tudo o que eu faço é vendido de imediato’’, finaliza.

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