A julgar pela destreza com que a merendeira Sueli Teixeira Lara, de 47 anos, comanda sua cozinha, não é difícil concordar com sua afirmação: ''Eu enxergo pelos poros'' - e pelo olfato, pelo paladar, pelos sons. Mas se hoje, ela está feliz, fazendo o que gosta e buscando mais, não foi tão fácil chegar onde chegou.
Quando ficou cega, aos 18 anos, por conta de um problema de descolamento de retina, a primeira reação foi a de não aceitar. ''Foi um desespero, eu estava estudando, trabalhando, tinha sonhos'', lembra. Por sete anos ela reclamou, chorou, se lamentou. ''Até morrer eu quis, não aceitava de jeito nenhum''.
As mudanças começaram a acontecer, conta, quando ela ''voltou a conversar com Deus''. ''Eu pedia que se era para viver sem enxergar, que Ele me ajudasse. E também fiz a minha parte, começei a aprender a fazer algumas coisas em casa, varrer, lavar louça. Minha mãe sempre falou: 'você tem que reagir'. E daí começei a fazer comida'', lembra.
No Instituto dos Cegos ela ficou como aluna por um ano e meio, até que a vocação se fez evidente: ''Sempre gostei de cozinhar. Quando era criança, brincava de cozinhar e de ter um bar. Quando eu entrei no Instituto, me deixavam mexer na cozinha. Fiquei um mês em teste, preparando os lanches, até que fui efetivada'', conta.
Hoje, além de trabalhar como merendeira no Ilitc, também tem uma empresa que vende cestas de café da manhã, pães, salgados e pratos congelados. ''Por enquanto é disque-entrega, mas a pretensão é que o negócio cresça, e que tenha um lugar que as pessoas possam ir'', afirma.
Para cozinhar, a organização na cozinha é fundamental, cada coisa tem que estar no exato lugar. E para cuidar do visual dos alimentos, conta com a ajuda da sócia. ''Não dá para falar que sou totalmente independente. No caso da comida, as pessoas 'comem com os olhos', então não adianta ficar só gostoso, tem que ficar bonito, e preciso de alguém para ver isso'', explica.
Todos esses anos, enquanto apurava a arte da cozinha, Sueli apurou também olfato, audição e paladar, para ''enxergar'' o mundo novamente. ''Tive que aprender tudo de novo. Eu digo que tive o privilégio de nascer de novo''.

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