A bomba viria no dia seguinte, quando a edição inteira (ou uns 90%) foi apreendida - nas bancas, nos carros que levavam o jornal para as cidades, nas bicicletas dos entregadores para assinantes e até em mãos de leitores. Por que a manchete de primeira página, com letras gigantes, era esta: ‘‘Leon Peres vai renunciar’’. Foi o único jornal do Brasil a noticiar o fato, com essa pompa.
Outros também tinham a informação, já de véspera como nós, mas ficaram com receio de noticiar, aguardando a nota oficial, que não veio. A Folha não. Convenci os censores de que a informação eu a havia obtido de fonte oficial, o que de certa forma era verdadeiro, e garanti-lhes que o fato era irreversível.
A edição foi impressa, mas já na saída do jornal chegou a Brasília o informe de que a Folha estava noticiando o fato, e a ordem foi imediata: que fossem apreendidos todos os exemplares. Lembro-me que, bem cedo, o advogado Alberto João Zortéa ainda conseguiu comprar um exemplar na banca, mas depois viria à Redação, muito revoltado, bradando que os policiais lhe haviam tomado o jornal das mãos. Quando lhe contamos a história ele ficou entre conformado e perplexo.
A informação eu obtivera de pessoa indiretamente ligada ao Ministério da Justiça, e era ali onde as decisões dos comandos militares, que deviam ser dadas ao público, eram despejadas.ReproduçãoFuroReprodução da manchete da Folha de 19 de novembro de 1971
A renúnciaA bem da verdade (e não se sabe porque os outros jornais não tiveram a coragem de divulgar) no começo da noite da véspera desembarcava em Curitiba, vindo de Brasília, o Secretário de Interior e Justiça do Paraná, Rui Ferraz de Carvalho, trazendo a notícia da renúncia que aconteceria. Leon Peres fora ‘‘renunciado’’ e teria que formular essa decisão à Assembléia Legislativa.
Quando ele assumira foi na mesma Casa. Veja-se a ironia: assumir e renunciar na Assembléia para parecer legal aos olhos da nação e do mundo...
No dia em que a Folha noticiava a renúncia, já com a foto do vice Pedro Viriato Parigot de Sousa, designado para assumir, os outros jornais falavam de generalidades, e quando afinal publicaram o fato, um dia depois, todos já sabiam. A informação dada pela Folha correu de boca em boca.
Em Curitiba, na Boca Maldita, alguns poucos exemplares que chegaram, pela mão de viajantes, eram lidas sofregamente (Para salvaguarda da verdade é preciso que se diga que dois jornais do sul do Estado haviam dado a informação na mesma data que a Folha, mas não com destaque e nem na primeira página, mas uma pequena nota em página interna).
As proibiçõesOs censores da Polícia Federal vinham ao jornal todos os dias, com os telegramas que recebiam de Brasília determinando que tipo de notícia não poderia ser divulgada, mas não os deixavam conosco, para que não ficassem provas escritas. Não queriam nem que os copiássemos, mas que os decorássemos.
Afinal nos permitiam copiá-los, e íamos colando esses papéis no mural da Redação, com a recomendação expressa de que ninguém deveria arrancá-los - e ninguém o fazia - não para nos lembrar de obedecer à censura, mas para que as pessoas que viessem ao jornal os vissem.
O jornalista Leonardo Henrique dos Santos, braço forte da Redação e brilhante profissional, muitas vezes discutia com os censores. Léo, como o chamávamos, havia estado em Cuba em missão jornalística, antes da Revolução brasileira, e por isso era meio visado pelo sistema.
E a jornalista Joana Lopes, diretora de teatro e redatora da Folha, incendiava a Redação com seus ideais anti-revolucionários. Era fervorosa defensora da anistia para os presos políticos e paralelamente editava o jornal ‘‘Brasil-Mulher’’, um tablóide de circulação nacional, impresso em Londrina. Sagaz e irônica, estava sempre na mira dos vigilantes de plantão. Os ‘‘salvadores da pátria’’ queriam que eu a denunciasse como comunista. Eu retrucava que ela era apenas uma ardente democrata!
Durante tantos anos de convivência, ficamos amigos de muitos dos censores. Eles eram policiais federais, portanto com formação profissional. Muitos eram advogados, e nunca, em ocasião alguma, foram prepotentes ou violentos. A prepotência estava no regime. Às vezes, nos fins de noite, iam beber cerveja conosco nos botecos. Eles também tinham críticas à ditadura. Éramos sempre francos em nossas opiniões.
Não dava para não ter posição político-ideológica naqueles tempos, e a birra dos jornalistas era também com a presença de elementos da escória - contrabandistas, picaretas, vigaristas conhecidos - todos engajados nas fileiras da Revolução. Óbvio que era junto ao poder que eles iriam se aninhar. Embora o regime também não os aprovasse, convinha-lhe fechar os olhos e ter o maior número possível de adeptos, porque havia muitos segmentos de rejeição entre a população, para não falar dos movimentos guerrilheiros.
As ironiasLeon Peres era muito brabo como governador, e certa ocasião mobilizou lideranças empresariais e políticas de Londrina para que eu fosse afastado do comando da Redação, já que qualificava a mim e aos demais jornalistas como subversivos. Certamente ele iria conseguir, mas aconteceu o seu afastamento pouco tempo depois.
Uma ocasião, vindo do Rio de Janeiro, para onde se mudara e deixara a barba crescer, desembarcou no aeroporto de Londrina, à noite, e na falta de táxis veio para o centro num carro da Folha, atendendo à oferta do motorista, que nem o conhecia. No caminho, manifestou o desejo de visitar o jornal. E eu, que nunca saia da Redação, havia justamente saído naquela hora, e não o vi. Lamentei muito, pois não alimentava nenhuma raiva contra ele e quisera ter tido a oportunidade desse encontro.
Mas outro fato interessante aconteceria: lá pelos idos de 1980/81 ele quis voltar à política, no Paraná, quando o país já vivia a abertura democrática. Tentou ingressar no PMDB de Maringá, para ser candidato a deputado federal, mas o partido negou-lhe filiação. Quis fazer pronunciamentos, para dar sua versão sobre o pedido forçado de renúncia, mas os jornais do Paraná não lhe deram guarida.
Menos a Folha de Londrina, que lhe abriu o espaço de uma página inteira, e ele falou o que queria (essa página foi aquela entrevista citada, do jornalista Messias Mendes, de 26 de janeiro de 1980). Leon Peres então culpou Paulo Pimentel pela sua queda. Pimentel fora o governador no mandato anterior, e Peres, quando no cargo, alardeava que seu antecessor deixara o Estado em difícil situação financeira. Pimentel teria se irritado, ele que também era homem do sistema e tinha força política junto ao presidente Médici; Peres culpou Ney Braga, homem forte da Revolução, a quem acusou de unir-se a Pimentel para articular sua renúncia; culpou os desembargadores, que aumentaram seus próprios proventos, de toda a magistratura e de todos os servidores do Poder Judiciário, e ele foi contra; negou a história de achaque denunciada por Cecíilio Rego Almeida, devolvendo-lhe uma contra-denúncia. Esses interesses contrariados, segundo Leon Peres diria nessa entrevista, foram a raiz de seu ‘‘impeachment’’.
Quando suas razões foram publicadas, ele diria: ‘‘O jornal que mais publicava coisas contra a Revolução e contra mim é justamente o único que agora me dá guarida. Por isso que é bom ter imprensa independente!’’. (W.M.)

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