Uma boa saúde depende, em grande parte, de uma atitude tão simples que talvez por isso a maioria das pessoas não leva a sério: lavar sempre as mãos com água e sabão. O hábito deve ser colocado em prática antes de manipular alimentos, depois de usar o banheiro e após manter contato com dinheiro. Esse último por sinal é um dos maiores vilões à saúde, aponta um dos principais especialistas brasileiros em higiene dos alimentos, o biomédico Roberto Martins Figueiredo. Citando dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), ele exemplifica que a infecção hospitalar no mundo seria reduzida em 99% se as pessoas que circulam por estabelecimentos de saúde simplesmente lavassem as mãos.
E para quem acha que o tema desta reportagem é banal demais, o especialista alerta: do total de três milhões de crianças menores de cinco anos que sofrem algum tipo de diarréia anualmente no mundo, 2,1 mil morrem vítimas da manipulação errônea de alimentos. Boa parte dos óbitos tem relação com a falta de higiene.
Figueiredo lamenta que o brasileiro, de maneira geral, não tem o cuidado de lavar as mãos com frequência e se expõe facilmente à contaminação por bactérias como coliformes fecais, estafilococus aureus e salmonellas, que podem provocar infecções intestinais graves. Os riscos aumentam, segundo o especialista, por causa das enormes deficiências de saneamento básico, sobretudo em áreas carentes, da falta de informação da população e da má qualidade do dinheiro brasileiro, um dos principais veículos transmissores de bactérias.
Mas o desleixo com a higiene das mãos não é um problema só de brasileiros ou das populações de países pobres. Segundo Figueiredo, pesquisa recente feita em aeroportos dos EUA e do Canadá acendeu o sinal de alerta para os americanos. Entre os canadenses, 95% das pessoas que usaram os sanitários lavaram as mãos antes de sair do banheiro. Já nos aeroportos americanos, entre 45% e 60% dos usuários não lavaram as mãos.
O biomédico lembra que o Canadá sofreu uma epidemia recente de síndrome respiratória aguda grave (Sars) e as pessoas foram orientadas. Com isso passaram a ter mais cuidado com a higiene pessoal. ''A lavagem das mãos com água e sabão ou detergente remove a maior parte da flora bacteriana adquirida, devendo ser rigorosamente exigida antes das refeições e após a defecação'', ensina Figueiredo.
O biomédico ressalta que o bom exemplo que deveria haver no ambiente familiar, na maioria das vezes, não existe. Sem informação, os pais acabam não educando os filhos adequadamente. Daí a importância das instituições de ensino na prevenção. Na Escola Interativa de Ensino Infantil e Fundamental, em Londrina, as regras de higiene são colocadas desde cedo. Nas classes do maternal, a idéia foi trabalhar a higiene pessoal usando brincadeiras e brinquedos. ''Tem que fazer disso algo prazeiroso e significativo. Só assim as crianças incorporam'', argumenta a coordenadora pedagógica Rosângela Lemos Delamuta. Ao saírem para os intervalos, os alunos passam antes pelo lavatório para depois se alimentarem.
A Folha conversou com uma turma de 1 série que, em coro, disse ''sim'' ao hábito de lavar as mãos com água e sabão. Mas porque é importante? ''Para não ficar com micróbios'', respondeu toda a turma. ''Não deixa a gente ter dor de barriga e muitas outras coisas piores'', completou um dos alunos. Confirmando o comentário do especialista, eles também disseram que algumas vezes têm que cobrar dos pais para que lavem as mãos antes das refeições. ''Quando falo sério, meu pai lava'', disse uma aluna.

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