Lá pelos idos de 1952, quando Raul Pieretti, na época com 17 anos, trocou a pequena São Sebastião da Grama - cidade do interior de São Paulo que hoje tem apenas 12 mil habitantes - por Londrina, encontrou um cenário muito diferente deste que conhecemos atualmente. Estabelecido na Avenida Duque de Caxias desde aquela época, ele foi testemunha ocular das transformações pelas quais a ''Pequena Londres'' passou em seus 72 anos de história.
Assim que aqui chegou, ele percebeu que Londrina oferecia sim oportunidades, mas era preciso trabalhar, e muito. Imediatamente colocou em prática o ofício que aprendeu com um de seus nove irmãos. De tesoura e navalha nas mãos, o barbeiro construiu seu futuro. Casou-se com Dirce e criou três filhos.
Neto de italianos e filho de colonos do café, Pieretti fez, em busca de oportunidades, o mesmo caminho de muitos outros migrantes que ajudaram a transformar a promissora cidade fundada pela Companhia de Terras Norte do Paraná em pólo de uma região de aproximadamente um milhão de habitantes.
Hoje, trabalha no Salão América, onde está desde 1965, quando comprou o ponto depois de passar por outros dois salões. E foi dali, entre um cliente e outro, que ele viu ''de camarote'' a cidade evoluir e muitos costumes mudarem ou desaparerecem.
''Naquela época, somente a Duque de Caxias e outras poucas ruas eram cobertas por paralelepípedos, a maioria era de terra mesmo. E a pior de todas era a Santa Catarina, onde morei até me casar, pois havia um ponto de charretes na Rua Rio Grande do Sul e era pela Santa Catarina que elas trafegavam para chegar até a parte mais alta do centro. Dessa forma, a terra ficava remexida. Com a chuva virava um barreiro. Quando secava era um poeirão. Muitas vezes tornava-se impossível andar a pé por ali. Eu preferia utilizar a Maranhão para chegar ao serviço'', recorda.
O asfalto chegou, o barro e a poeira deixaram de existir. Mas a Duque e as outras ruas centrais ''ganharam'' um outro problema: o tráfego intenso de automóveis e, principalmente, ônibus que fazem um barulhão, muito diferente do barulho das carrocinhas de entrega, o único que se ouvia no centro da cidade, segundo Pieretti.
Questionado se os estilos de corte se tornaram mais fáceis ou mais difíceis de se fazer ao longo dos tempos, ele explica que não há diferença, pois a moda vai e vem, o problema eram os equipamentos ''arcaicos'' e também lavar os cabelos sujos de terra vermelha. ''Nos tempos da brilhantina, a poeira grudava, era uma dificuldade para lavar'', diz. ''Sobre os clientes, a grande mudança é que antigamente muitos homens tinham bigodes, dos quais cuidavam com capricho. A procura era grande. Hoje, faço mais barbas e cortes de cabelo'', completa.
Voltando a falar de história, ele se lembra da geada negra de 1975, que dizimou os cafezais do Norte do Paraná e deixou sem dinheiro no bolso até quem não era agricultor. ''A cidade era muito dependente da agricultura, como é até hoje. Com a geada, até o cabelo as pessoas deixavam de cortar'', relata.
Nestes 55 anos de profissão, ele não faz idéia de quantas pessoas atendeu, mas certamente muita gente já se sentou nas cadeiras do Salão América, inclusive alguns ilustres londrinenses, cujos nomes Pieretti prefere não revelar. Assim como ele também não conta, nem com muita insistência, histórias de coisas ''cabeludas'' da política local que já foram ditas em seu salão.
Também é comum o barbeiro fazer o papel de psicólogo. ''Tem muita gente que senta aqui e desabafa sobre os problemas da vida'', comenta, mas sem dar detalhes das histórias.
Para finalizar, lamenta que a profissão de barbeiro esteja em extinção. ''Os mais novos não querem aprender a fazer barba, só cabelo. Na verdade, é muito difícil fazer a barba dos outros, pois cada pele reage de uma maneira e os clientes exigem um trabalho perfeito. Acho que daqui a cinco anos só vão existir cabeleireiros''.

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