Houve um tempo em que atuar em instituições sem fins lucrativos era sinônimo de trabalho voluntário, sem remuneração. Essa situação, no entanto, vem mudando rapidamente e as chamadas Ongs (Organizações Não-Governamentais)atraem cada vez mais profissionais que buscam associar o apoio às causas sociais ao desenvolvimento da carreira.
Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2006, traçou o perfil deste segmento que, há pelo menos duas décadas, vem apresentando forte crescimento no País. Pela primeira vez nas contas nacionais, o instituto verificou a importância do terceiro setor na economia brasileira.
Após a primeira fase, nos anos 70 e 80, caracterizada pela formação dos movimentos sociais, muitos com o objetivo de confrontar o então regime da ditadura militar, e da etapa de institucionalização desses movimentos - a partir da redemocratização do país -, as Ongs trilham hoje a trajetória da profissionalização e do amadurecimento.
''As instituições sem fins lucrativos, como associações, fundações e institutos, que recebem o apelido de Ongs, são atores econômicos assim como as empresas. Empregam, geram produtos e tornaram-se importantes parceiros do Estado na realização de projetos'', ressalta a professora Ana Lúcia de Santana, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Terceiro Setor (Nits) da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Fundado em 2003, o Nits, de acordo com Ana Lúcia Santana, tem por finalidade incentivar a pesquisa e estudar as práticas bem-sucedidas do terceiro setor, além de contribuir com a formação dos interessados em desenvolver a carreira no âmbito do terceiro setor.
O Núcleo está oferecendo a quarta turma do curso de aperfeiçoamento ''Ongs: princípios fundamentais para sua criação e manutenção'', que atrai profissionais de diversas áreas, como advogados, psicólogos e engenheiros.
''Cada vez mais, em qualquer que seja a área, não podem ser formados (pelas universidades) apenas técnicos. É preciso formar cidadãos, pessoas que consigam perceber o todo'', destaca Ana Lúcia Santana.
Nova geração
Estudante do 7º período do curso de serviço social, Juliana Moraes, 24 anos, está em sua segunda experiência no terceiro setor. Desde janeiro, ela atua como estagiária do Centro de Referência do Grupo Dignidade, entidade que apóia homossexuais. ''Trabalhei antes em uma Ong que promovia a inclusão de adolescentes de baixa renda. O terceiro setor é uma nova porta que se abre para os profissionais'', comenta.
Diferentemente do que ocorria no início da organização dos movimentos sociais, hoje, é possível afirmar que a atuação em Ongs independe da adesão a uma causa específica. ''Antes de trabalhar no Grupo Dignidade, eu nunca tinha ouvido falar em público GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros)'', admite a estudante de psicologia Carlisy Stamm, 22 anos, que é heterossexual, assim como Juliana e Luana Sampaio, 20 anos.
''Meu pai é muito conservador. No início, estranhou a escolha que fiz por esse trabalho. Já o meu namorado me apoiou, até veio conhecer o grupo'', diz a aluna do curso de direito, outra representante da nova geração do terceiro setor.
Profissionais em formação, Carlisy, Juliana e Luana têm o perfil esperado por quem está à frente da administração das entidades.''As comunidades (da periferia) deixaram de ser coadjuvantes na sociedade. Precisamos de gente capacitada e preparada que possa contribuir com os projetos dessas comunidades, de forma cada vez mais profissional'', afirma Davi Gabriel, presidente da Central Única das Favelas (Cufa) no Paraná.
A recente polêmica envolvendo o repasse de verbas do governo federal destinados a Ongs, que motivou a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado, é considerada uma iniciativa positiva pela professora Ana Lúcia Santana.
''É fundamental que haja o controle social sobre as entidades. Quem destinou os recursos também tem que responder pelos convênios e contratos firmados'', argumenta a coordenadora do Nits. Segundo ela, ter ''uma cesta de recursos'', evitando manter o governo como único parceiro é muito importante para a sobrevivência das instituições.

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