Ongs e voluntários mantêm cursinhos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Nos últimos anos, órgãos públicos brasileiros criaram mecanismos para aumentar a presença de jovens de famílias de baixa renda no ensino superior, como os sistemas de cotas e o programa Pró-Uni. Ainda assim, a grande concorrência nos vestibulares, a má qualidade de muitas escolas públicas e as dificuldades financeiras ainda atrapalham
o sonho de entrar na universidade.
Pensando nisso, organizações não-governamentais e voluntários mantêm cursinhos pré-vestibulares direcionados a estudantes de baixa renda. Muitos cursos estão estabelecidos em Curitiba. O Em Ação, mantido pela ong de mesmo nome, existe desde 2000 e é gratuito. De acordo com João Carlos Guilherme, voluntário da organização, há quatro anos o cursinho mantém um termo de parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), e as aulas são realizadas no Centro Politécnico da instituição.
Por ano, 350 estudantes passam pelo cursinho, nas modalidades extensivo (ano inteiro) e semi-extensivo (meio ano). Segundo Guilherme, quase 4 mil estudantes se inscrevem toda vez que uma turma é anunciada. Fazemos a princípio um teste e depois uma seleção, com entrevistas e considerando o fator renda, para definir os que participarão do curso, explica o voluntário. Ele aponta que as aulas, ministradas por voluntários, na maioria ex-alunos da UFPR, priorizam os vestibulares de universidades públicas e o Pró-Uni.
O Cursinho Luiza Ross, na comunidade do Boqueirão, tem hoje 60 alunos. Os estudantes têm que pagar uma pequena taxa para a compra do material didático. Pretendemos constituir uma ong para que o cursinho seja totalmente gratuito, diz Ehrick Eduardo Martins Melzer, um dos coordenadores.
Nossos professores são voluntários de várias áreas. Nossa maior dificuldade é conseguir pessoas para ajudar a tocar o cursinho, para trabalhar nos bastidores. Professores, felizmente, não faltam,
explica Melzer.
O cursinho da Associação Cultural de Negritude e Ação Popular (Acnap), cujas aulas são realizadas no Prédio Central da UFPR, dá preferência a estudantes negros de baixa renda. O curso nasceu de um trabalho da Acnap no bairro Sítio Cercado.
Entre 2002 e 2004, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro e a Fundação Ford financiavam. O projeto acabou e o cursinho hoje é mantido com apoio dos alunos, da UFPR e da Eletrosul. Até 2004, o curso era exclusivo para afrodescendentes. Desde então, existe uma cota de 20% para estudantes não-negros. Todos têm que ser oriundos de escola pública, aponta Jaime Tadeu da Silva, coordenador técnico do cursinho. Ele explica que os alunos pagam uma taxa de R$ 20 de inscrição e outra de R$ 250 de custeio, que pode ser parcelada. Os valores servem para uma ajuda de custo aos professores.
Silva diz que a evasão no cursinho traduz a dificuldade que alunos de baixa renda têm para se manter nos estudos. Nós começamos o ano com 180 alunos, hoje estamos com 120. A meta sempre foi ter 200 alunos. Mas muitos estudantes têm a necessidade de trabalhar, para sustentar ou ajudar a família. E trabalhar o dia inteiro e ainda estudar à noite é difícil. A evasão é um problema comum em cursinhos para estudantes carentes, afirma o coordenador.


