Onde nasce o Rio Belém
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
Na divisa de Curitiba com Almirante Tamandaré, o bairro Cachoeira divide-se entre as duas cidades. Isto é, o Cachoeira da capital tem um bairro homônimo colado a ele no município vizinho. Ainda pouco urbanizado, do lado curitibano o bairro abriga o berço de um dos principais rios da cidade, o Belém. E em 24 de novembro de 2001, no Dia do Rio, ganhou o Parque Municipal Nascentes do Belém. Restrito a uma área de 11.178 metros quadrados, o Parque não oferece grandes atrativos além da nascente. A principal característica do bairro é mesmo a ocupação irregular da região.
Nascido no bairro e um dos primeiros a construir sua casa na área conhecida como Recanto Feliz, quando ''só tinha um carreirinho e quatro casas'' ali, 43 anos atrás, Juvenal de Oliveira, de 64 anos, lamenta apenas o fato de ainda não ter a posse regular do terreno onde passou quase toda a vida. ''Não é aprovado mas nós pagamos pelo terreno. Já fizeram várias reuniões, parece que agora vai regularizar'', conta Oliveira.
De acordo com a Companhia de Habitação (Cohab), o Cachoeira curitibano tem hoje cinco áreas de ocupações irregulares e sete loteamentos clandestinos, como o Recanto Feliz. Das áreas de ocupações irregulares, duas estão em propriedades particulares e três encontram-se em terrenos públicos, dos quais dois pertencem à Prefeitura de Curitiba. O outro é propriedade da Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs).
Os terrenos públicos estão em processo de transferência para a Cohab, para posterior regularização das áreas. No caso das áreas particulares, uma delas, conhecida como Bom Jesus, está em fase de negociação entre o proprietário e os ocupantes. Essa negociação está sendo intermediada pela Cohab. A outra área, chamada Nossa Senhora da Glória, está em processo de análise de documentação.
Os loteamentos clandestinos precisam passar por avaliação da Comissão de Regularização de Loteamento (CRL), que funciona junto à Secretaria de Urbanismo. E a regularização depende do aval do Ministério Público. Atualmente, o loteamento Recanto Feliz é o único cuja documentação passa por análise da Cohab, antes de passar pela CRL. Ao todo 1.072 domicílios estão em situação irregular hoje no município, segundo a Cohab.
De acordo com o Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 2.209 domicílios presentes no Cachoeira naquele ano, 41% não eram legalmente válidos. A população do bairro, segundo estimativa do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) para 2007, totaliza 8.899 habitantes.
Ao longo das últimas décadas, serviços básicos como água encanada e transporte coletivo começaram a chegar no bairro, mas sempre de forma gradativa. ''Eu ia pegar ônibus lá no Barreirinha. O pessoal carregava de tudo, galinha, peixe podre. Era feio'', lembra Juvenal de Oliveira, que ainda conserva o poço na frente de casa. ''Quando faltava água, a gente tirava do poço. Depois disseram pra gente fechar mas eu não fechei não'', afirma a mulher dele, Clementina de Oliveira, de 62 anos, que não quer sair do Cachoeira. ''Uma vez ele falou em vender. Eu disse: vai embora sozinho que eu fico aqui'', conta.
Moradora do bairro há quase um ano, Maria José de Souza Vaz, de 53 anos, diz que escolheu o Cachoeira por causa do aluguel mais barato. ''Aqui pago R$ 290, no Barreirinha uma casa como essa seria R$ 340'', compara. Maria José também comemora o fato de nunca ter tido a casa roubada ali, mas diz que já soube de vários casos. ''A fama aqui é de roubo mesmo, mas essas coisas estão acontecendo em vários lugares'', observa.
Proprietária de uma farmácia na Avenida Anita Garibaldi, a principal da região, Cristiane Tortola Volf, afirma que os assaltos a comerciantes são constantes. ''Não tem nenhum que não foi roubado aqui. À mão armada fomos uma vez só e agora temos segurança particular. A outra farmácia ali é toda semana'', conta Cristiane. ''Aqui é bonzinho, só que é perigoso'', lamenta.


