OLFATO APURADO - Consumidor se conquista pelo nariz
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sábado, 24 de maio de 2008
Renato Oliveira<br>Especial para a FOLHA 
As fragrâncias ficaram famosas como a alma dos perfumes. Mas, grande parte dos produtos encontrados em supermercados hoje usa algum tipo de essência na sua formulação. A extração de óleos das flores, folhas e frutos já dispõe de tecnologia avançada, porém os mais criteriosos ainda preferem os aromas obtidos por métodos artesanais; para eles, as diferenças são fundamentais.
A aplicação mais comum da fragrância está na formulação dos perfumes, conhecidos como objetos de sedução e ostentação de poder. Entretanto, seu emprego ultrapassou a clássica perfumaria fina e, atualmente, é a matéria-prima de grande parte dos produtos de consumo existentes dentro das residências. De acordo com especialistas, desde cosméticos, artigos de higiene pessoal, produtos de limpeza para casa e roupas até as tintas possuem algum tipo de odorizante em sua formulação.
''A indústria produz o óleo essencial puro. Ele passa por um processo de diluição, levando em conta sua aplicação, para obter a fragrância. Você pode variar as concentrações e as escalas do acordo com o seu custo que pode oscilar entre US$ 6 e US$ 500 por quilo. Tudo depende do corte feito pelo perfumista'', explica Allan Guimarães, presidente do Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Norte do Paraná.
Segundo ele, que desde criança vive no universo dos cheiros, nos produtos de limpeza sua concentração é baixa porque a fragrância possui papel figurativo. ''Mas se for para um perfume, o percentual deve ser maior, porque ele chega a ficar até oito horas em contato com nosso corpo. Existe também a resistência à nossa gordura que é levada em conta. Não dá para pagar R$ 50, R$ 100 ou R$ 200 por um perfume importado que logo perca o cheiro'', compara. Ele conta também que a qualidade está ligada às outras matérias ativas como o fixador ''que é o aflorador da essência, aquilo que faz o cheiro resplandecer no ar''.
O surgimento do perfume está relacionado ao aperfeiçoamento das técnicas de extração das essências. Os egípcios descobriram que plantas maceradas com óleos poderiam se transformar em unguentos perfumados. ''No processo artesanal, as folhas como a do eucalipto são selecionadas e depois passam por um processo na destilaria. É daí que você tira a matéria-prima: o óleo básico de eucalipto. É com base neste produto que se faz a segmentação e dá origem às variantes desse aroma, que leva em conta sua aplicação na indústria cosmética ou de limpeza'', detalha Guimarães.
Entretanto, com o desenvolvimento de técnicas industriais, seu processamento ganhou outros contornos. ''A perfumaria moderna virou realidade no final do século XIX quando surgiram as primeiras matérias-primas sintéticas. Logo foram agregadas ao arsenal de criação do perfumista, que conta com aproximadamente 4 mil variantes, dentre as quais, 400 são de origem natural.'', contextualiza o perfumista da casa de fragrâncias Givaudan, Hernan Fígoli.
O perfumista
A tecnologia não substitui o talento do homem e o perfumista, responsável por retirar da natureza os odores e aromas, deve ter uma memória olfativa apurada. ''Para extrair um óleo essencial e chegar à fragrância, ele age da mesma maneira que um pintor ou um músico. É um verdadeiro artista que precisa encontrar o ponto de equilíbrio. É importante que tenha uma memória sensorial para saber qual substância natural ou sintética pode simular um determinado aroma'', explica Fígoli.
Outra competência importante é dispor de um vasto conhecimento dos componentes químicos e substâncias odoríferas. ''A vantagem do processo industrial é a produção em larga escala e a popularização do perfume. É possível dizer também que, com o advento da indústria e das tecnologias modernas, a reprodução de fragrâncias complexas ficou mais fácil. Hoje, elas combinam matérias-primas de origens sintéticas e naturais. Isso abre nosso leque de cheiros'', complementa o perfumista.
Entretanto, existem setores do mercado que trabalham com públicos criteriosos quando o assunto é a classificação dos cheiros. ''Existem clientes que possuem um teor olfativo muito apurado. Por exemplo, as essências da fruta, da flor e da folha da pitanga possuem acentuações distintas. Os mais exigentes percebem as diferenças'', explica Guimarães.
No Brasil, não existe um curso dentro de universidades que forme e qualifique um perfumista. Quem assume a função, normalmente, é um químico ou um farmacêutico que trabalha dentro dos laboratórios na área de manipulação.


