Ofício de corte
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de abril de 2009
André Amorim<br>Equipe da Folha 
No mundo virtualizado e descartável em que vivemos hoje, onde tudo é produzido em série e nada é feito para durar, é cada vez maior o número de pessoas que buscam uma experiência prática mais concreta como a cutelaria, que consiste na confecção de objetos cortantes, como facas e espadas. O ofício é milenar e seus praticantes têm grandes chances de saírem chamuscados, doloridos e com calos nas mãos, mas o resultado - de produzir um artefato de aço para toda vida - compensa. Na opinião de Peter Hammer, 40 anos, um dos cuteleiros mais conceituados do Brasil, nos cursos que ministra sobre esse tema é grande a presença de profissionais da áreas que não envolvem trabalhos manuais, como a informática, que chegam ávidos por uma atividade que lhes traga um resultado tangível. Ao final das aulas, segundo ele, é comum os alunos ganharem o insulto mais elogioso que alguém pode receber: ''Não acredito que foi você quem fez isso''.
Antes de forjar sua primeira faca artesanal, Peter Hammer nunca havia tocado em um objeto como esse antes. Tinha a referência de algumas publicações estrangeiras e uma vaga idéia de como era o processo de fabricação. Em meados de 1990, ele lembra que existiam por volta de seis cuteleiros profissionais no Brasil, nenhum deles disposto a lhe ensinar seu ofício, o jeito foi aprender
sozinho.
Para se lançar nessa jornada, ele vendeu seu equipamento fotográfico, sua guitarra e suas armas de competição para comprar os equipamentos necessários para sua primeira oficina. Um amigo que trabalhava com tapetes ajudou-o com as empunhaduras e as bainhas e em algumas semanas estava pronta sua primeira faca. Dois anos depois, com apenas 22 anos de idade, Hammer já era considerado pelas revistas especializadas como o maior cuteleiro do Brasil e inaugurava uma nova vertente da atividade, a cutelaria jovem. ''Formei 50%, 60% dos cuteleiros de primeiro time no país'', avalia. Segundo ele, sua disposição em ensinar o ofício fez com que muitos antigos profissionais da área lhe virassem a cara. ''Diziam que eu ia estragar o mercado'', lembra. Para Hammer, o cenário que se desenhava antes de entrar nesse ramo de atividade era desolador, a grande maioria dos grandes cuteleiros já estava com idade avançada e levariam para o túmulo os segredos da técnica.
Para ter sucesso nessa empreitada, Hammer conciliou seus conhecimentos prévios de artesão hippie, joalheiro, e jornalista, este último usado para divulgar seus produtos. Hoje ele sabe que existem três grandes mercados para cutelaria. O primeiro é voltado àqueles que utilizam as facas no exercício da profissão, a exemplo de cozinheiros e policiais. O segundo refere-se àqueles que utilizam estas facas em hobbies como pescaria e caça. O terceiro comprador deste tipo de artefato são os colecionadores, pessoas geralmente muito discretas que não medem esforços (financeiros) para adquirir seus objetos de desejo.
Foi um colecionador de Curitiba que adquiriu a faca mais cara do país em valores absolutos (U$ 2.500), forjada por Hammer em aço de Damasco, com bainha em ébano e cabo de marfin em comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil. A capital paranaense concentra um bom número de colecionadores, comentou Hammer.


