Ficou fácil topar com bares, lanchonetes e cafés em Curitiba que estendem o atendimento da clientela até a calçada nos horários de funcionamento dos estabelecimentos. Na Rua XV, na Praça da Espanha, na Rua Carlos de Carvalho é fácil avistar um burburinho. As mesas e cadeiras são simplesmente dispostas no espaço público ou ganham um cenário mais caprichado, com floreiras e toldos para garantir o sossego diante das chuvas, que parecem surgir do nada na Capital.
Embora se viva na cidade um tempo tão instável, não foi o suficiente para forçar o curitibano a abrir mão desta proposta: beber um cafezinho ou tomar uma cerveja bem gelada, observando o movimento das ruas.
Relaxar dentro da metrópole ao acompanhar o frenesi da vida urbana soa como algo incoerente. Mas é assim mesmo que acontece. ''A gente vem aqui para fazer uma paradinha para o café, encontrar os amigos para uma boa conversa. Nosso lugar preferido é aqui fora, especialmente no verão'', conta o comerciante Nemer Omairi, de 60 anos, se referindo ao Caffé Metrópolis, no Centro. ''Vir aqui é quase religioso, todo dia, das 11h30 às 13h, antes do almoço. Fazemos isso há quatro anos. Ficamos na calçada para ver o movimento das pessoas, para distrair. Vivemos em lugares fechados e ao ar livre a gente tira o estresse'', justifica o também comerciante Abbas Jezzini.
O estabelecimento foi a primeira cafeteria a conseguir autorização da prefeitura para instalar mesas na calçada no Centro há oito anos, quando foi inaugurado. ''A Comendador Araújo teve o primeiro estabelecimento com essa licença, foi o Giuseppe, logo depois que a rua foi revitalizada. É preciso respeitar os limites da calçada para a passagem dos pedestres'', explica o proprietário do Metrópolis, Victor Lassen, pontuando que a inspiração do seu estabelecimento veio dos cafés parisienses, desde a fachada às cadeiras e mesas na calçada.
''Cafeterias são genuinamente urbanas, surgiram dentro das cidades. O café espresso é um hábito urbano'', lembra Lassen, contando que o perfil dos frequentadores muda ao longo do dia. Na parte da manhã, chegam pessoas mais velhas e aposentados que só deixam o lugar perto do meio-dia. Jovens e casais de namorados chegam depois do almoço, e mais no fim da tarde é a vez dos grupos de senhoras da terceira idade, que costumam pedir chá com tortas. ''Aqui vêm muitos poetas, artistas, jornalistas, intelectuais. As idéias florescem nos cafés.''
Lassen identificou três tipos de frequentadores nos cafés: os apressadinhos, que pedem um espresso para beber no balcão, aqueles que gostam de sentar em determinada mesa, pedem uma bebida para ler uma revista ou navegar na internet, e os que passam até três horas no local, sentados nas mesas da calçada, observando as pessoas e ''jogando conversa fora''. ''A cidade fica mais bonita, mais humana, já que arrumamos o espaço com floreiras, um pequeno jardim. Esses ambientes tornam o cotidiano mais leve, mantêm uma relação de prazer com as pessoas e de relaxamento no espaço urbano'', defende Lassen.
Há meio século
em atividade
Próximo do Metrópolis, fica o tradicional Bar do Ligeirinho, em atividade há mais de meio século. Às 18 horas, longe ainda de escurecer, já tem gente se refrescando com chope gelado na calçada, lembrando mais um comportamento de cidades litorâneas. ''Curitiba é nossa praia'', diz em coro o trio de amigos. ''No frio a gente fica lá dentro, mas no verão é muito melhor aqui fora, para olhar o movimento das pessoas. A gente nem repara no barulho dos carros'', conta o professor Jorge Modesto, de 50 anos. ''Curitiba tem mar, de carro chegamos ao Litoral em uma hora. No Rio de Janeiro, a pessoa leva três horas de Bangu a Copacabana'', brinca o jornalista londrinense Elízio de Abreu, de 47 anos.
De perto, acompanhando a conversa dos amigos, o dono do Ligeirinho, Ronald de Abrão, de 75 anos. ''Quando o astro Sol entra em cena fica tudo fácil. As mesas na calçada ajudam a desafogar o bar, principalmente, quando fica lotado'', confessa ele, que começou a utilizar a calçada há quatro anos. ''Mesmo com o tempo instável, colocamos as mesas do lado de fora, até no inverno. Se começa a garoar ou a chover, tentamos dar um jeito, o freguês levanta com o copo na mão. Ninguém reclama, porque essa é a realidade de Curitiba, faz as quatro estações num dia só. Hoje, quem gosta de ficar na calçada, não abre mão ficar lá'', completa Abrão.

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