Em obras desde agosto do ano passado, o Paço Municipal está em meio a um processo que transformará o edifício em um centro cultural, administrado pelo Sesc Paraná (integrante do Sistema Fecomércio), que, interessado no imóvel, assinou em julho de 2006, um convênio de permissão de uso por 25 anos junto à Prefeitura de Curitiba.
O prédio, que estava vazio desde 2002, quando o Museu Paranaense o desocupou, está passando por uma restauração, executada pela Emadel Engenharia e Obras Ltda, empresa vencedora da licitação. O novo espaço contará com ambiente para exibição audiovisual, salão multi-uso, camarim, espaços para aulas de artes eletrônicas e oficinas pedagógicas, estúdio de gravação, livraria, loja, salão de exposições, sala de leitura, internet, café, entre outros.
Nestes sete meses de obras, a equipe de restauro encontrou surpresas que obrigaram o projeto a se estender. Segundo a assessoria de imprensa do Sesc, o cronograma muda conforme vão descobrindo imprevistos. ''Se tudo correr dentro da nossa projeção, o término das obras será no segundo semestre de 2008'' informou a assessoria.
Humberto Fogaça, arquiteto responsável técnico pelo serviço de restauração do Paço (termo de origem portuguesa para denominar os edifícios que abrigavam instituições públicas e executivas), cita que obras de restauro são muito específicas e geralmente demoram mais que o planejado. ''Trata-se de um prédio tombado, complexo em elementos técnicos e artísticos, datados do início do século 19. Quanto se começa um projeto de restauro, você parte dele sem equipe. Quando a equipe começa o trabalho, encontram-se surpresas. Por exemplo: durante uma escavação, encontra-se um muro de pedra subterrâneo, que exige mudanças de planos'', exemplifica. ''O mais simples seria ter um terreno com um projeto começando do zero, mas esta não é a situação que temos'', argumenta.
O Paço Municipal é considerado o edifício mais importante da Capital, pois é tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado e da União. Por este motivo, o processo de restauro e reforma deve ser tão rigososo. As únicas outras edificações paranaenses com tombamentos federais são a Fortaleza da Ilha no Mel e o Setor Histórico da Lapa.
A caracterização arquitetônica do prédio é variada. Possui uma linguagem art nouveaux, característica do período do ecletismo na arquitetura brasileira. ''O Paço tem elementos de decoração pictórica e escultórica. Ele é quase uma escultura só. Temos poucos exemplares como este no Brasil'', comenta Fogaça. ''O Paço Municipal está para Curitiba assim como Notre Dame está para Paris, sem exagero'', defende.
Luciane Ribas, coordenadora de restauro artístico das pinturas, explica que em cada ambiente do Paço Municipal são retiradas das paredes as várias camadas de tintas acumuladas com o passar dos anos, que variam de três a 11, até chegar à pintura original. ''Cada sala tem uma faixa com uma amostra da pintura original, que serve de modelo para reconstituir as paredes, que originalmente possuíam uma pintura decorativa, modular, em estêncil'', explica. É necessário que sejam utilizadas as mesmas técnicas da época em que o prédio foi construído.
Profissionais de diversas equipes de restauro trabalham em todas as pinturas do prédio, incluindo os painéis do teto. ''São telas fixadas em estuque, um tipo de gesso. Não há afrescos, que são as pinturas feitas diretamente sobre uma argamassa enquanto ela seca. Dentro do restauro, o processo compreende refixação da tela no estuque, remoção do verniz oxidado e de intervenções, limpeza pronfunda, nivelamento e integração da policromia'', explica.
A autoria das obras são atribuídas a João Ghelfi, J. Ortolani e Anacleto Garbaccio. Segundo levantamentos históricos, é provável que os três tenham trabalhado nas pinturas artísticas do prédio como um todo.
Mas nem tudo poderá ser recuperado. Um dos tetos que tinha uma pintura desabou e não havia registros de suas obras, que foram perdidas. Na área externa é preciso consolidar a argamassa que está solta e consertar as fissuras. ''Toda argamassa antiga é mandada para um laboratório que reproduz uma nova argamassa com um traço parecido com o da época de construção. O material deve ser compatível com o original'', explica Ribas.
Construído entre os anos de 1914 e 1916, o Paço Municipal, também conhecido como Paço da Liberdade, foi a primeira sede da Prefeitura de Curitiba e é até hoje considerado um dos mais importantes monumentos arquitetônicos da cidade. Foi projetado pelo prefeito e engenheiro Cândido Ferreira de Abreu, com a colaboração do escultor Roberto Lacombi.

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