Esqueletos de metal, cascas de concreto. Pelas ruas de Curitiba encontramos várias construções abandonadas que hoje emprestam à cidade um ar decadente. Estes lugares acabam se tornando esconderijo para desocupados - os conhecidos ''mocós'' - e criadouro para insetos e roedores, ameaçando a segurança e a saúde dos moradores próximos.
Para efetuar a manutenção e fiscalização destas obras e punir seus responsáveis, a prefeitura de Curitiba criou, em fevereiro deste ano, uma força-tarefa composta por técnicos das secretarias do Meio Ambiente, Saúde, Urbanismo, Obras e Administrações Regionais. Em sua primeira ação, no bairro Santa Felicidade, a força-tarefa notificou mais de 30 proprietários de imóveis abandonados ou inacabados.
De acordo com o diretor do Departamento de Fiscalização da Secretaria Municipal de Urbanismo, José Luiz Filippetto, o problema dos mocós é complexo. ''Na maioria das vezes trata-se de obras particulares, daí não é possível investir o dinheiro público para concluir a obra ou demoli-la'', observa. Em muitos casos, as construções pertencem à massa falida de alguma construtora. Desta forma é difícil conseguir que a justiça destine o espólio da empresa para regularizar a obra, pois geralmente os pagamentos trabalhistas têm prioridade. Em outros casos, a construção inacabada faz parte do inventário do falecido proprietário. ''Como está em inventário, não sabemos qual herdeiro autuar'', explica Filippetto.
Quando uma obra paralisada apresenta risco à segurança dos moradores próximos, seu proprietário é notificado e tem que vedá-la para impedir a entrada de pessoas estranhas. Caso ele não cumpra esta determinação, a prefeitura emite um auto de infração. Se o local não for regularizado, é feito um segundo auto de infração. Se ainda assim nada for feito, a Procuradoria Geral do Município pode entrar com uma ação pedindo a demolição da obra. ''Como em cada um destes estágios cabe recurso na primeira e na segunda instância, geralmente demora para haver a demolição'' afirma Filippetto.
Atualmente existem 154 mocós em processo de notificação. Um deles, um prédio de três pavimentos localizado próximo ao cemitério da Água Verde, está parado há mais de oito anos. Segundo uma moradora das proximidades que não quis se identificar, a paralisação teria ocorrido porque a altura do edifício é maior do que o permitido pela prefeitura. Apesar de temer a desvalorização dos imóveis próximos, ela não tem queixas sobre concentração de desocupados ou proliferação de doenças. ''Tem gente que mora lá mas não nos incomoda'' afirma ela.
Os moradores deste edifício abandonado são a família de Gilmar Silva, que há 8 anos cuida do imóvel em troca de moradia. ''É tranquilo, tem água, luz e dois cachorros pra segurança'' conta. No interior da construção encontramos grande volume de água acumulada e poços cobertos por tapumes. ''Perigo tem em qualquer lugar, né?'', reflete Gilmar.
Além da proliferação de doenças e do risco social, obras inacabadas podem trazer sérias dores de cabeça para os vizinhos. O perigo de desabamento é grande e muitos mocós de madeira acabam incendiados quando seus ocupantes tentam fazer fogueiras para espantar o frio.

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