Objetos do desejo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de agosto de 2007
Luiza Xavier<br> Equipe da Folha 
Em quatro salas do antigo casarão localizado no centro da cidade, o comerciante aposentado Max Conrad, de 75 anos, mantém um acervo de dar inveja a muitas casas de cultura: são sete mil livros, boa parte deles obras que tratam de artes plásticas e da história do Paraná, pôsteres e publicações estrangeiras sobre cinema, discos, selos, coleções completas de jornais - só de ''O Pasquim'' são mil exemplares - além de revistas que há muito deixaram de ser editadas, como ''Realidade' e ''Manchete''.
Nas paredes, alguns dos 140 quadros de pintores paranaenses, adquiridos nos últimos 50 anos. ''Todos os bons que já se foram'', comenta ''Seu'' Max, num tom quase melancólico, referindo-se a Leonor Botteri, Luiz Carlos de Andrade Lima, Miguel Bakun e Theodoro De Bona, alguns dos artistas que constam de sua coleção. Ano passado, parte dela esteve duas vezes em exposição no Museu Alfredo Andersen.
Entretanto, os eventos não entusiasmaram o colecionador. ''Nem fui até lá. Não vejo os nossos artistas serem prestigiados. Agora, o mundo é dos decoradores e a moda é pendurar nas paredes aquelas telas com 'manchas', cujo significado ninguém entende. Não consigo interpretar o valor dessas obras'', lamenta Conrad, um apaixonado por auto-retratos, mas que desistiu de fazer novas aquisições. A família agradece.
''Cada vez que eu comprava um quadro, era a maior chateação aqui em casa. Até hoje eles não entendem como consegui juntar tudo isso, dizem que sou teimoso e perguntam como deixei a coisa chegar a esse ponto'', diz ele, que reconhece estar ''saindo do sério'' por causa da paixão pelas coleções, surgida na adolescência. ''Minha primeira coleção foi de revistinhas do Flash Gordon'', recorda-se.
Conviver com as críticas da família para manter um hábito, às vezes difícil de ser compreendido, também faz parte da rotina da secretária aposentada Cirley Eleutério Lima, de 70 anos, que já teve uma biblioteca mas, atualmente, mantém em um pequeno cômodo, no quintal de sua casa, objetos dos quais não consegue se desfazer: móveis de família, relógios, livros e muitos exemplares de jornais e revistas. ''Comecei a guardar pensando em ajudar minhas sobrinhas nas pesquisas da escola. Depois, para os meus filhos. Hoje, com a internet, eles não ligam mais''. Ainda assim, ela mantém o gosto pela prática. ''Guardo tudo porque acho que, um dia, pode servir para alguma coisa'', afirma.
Arte para alguns, passatempo para outros ou simplesmente uma''mania'' na definição dos críticos, o colecionismo pode ser considerado uma das formas mais interessantes de entrar em contato com a história e a cultura de alguns povos. Há ainda um outro aspecto: a sensação de estar deixando uma mensagem às futuras gerações.
''Imaginava que, com essas coleções, podia deixar alguma coisa sobre as nossas raízes. Gostaria que, depois de mim, houvesse alguém para continuar cuidando de tudo, mas eu sei que nada é para sempre'', diz, resignado, Max Conrad, que não se ilude quanto ao futuro de seu acervo. ''Meus dois filhos não são do 'ramo', e a manutenção é difícil, custa muito'', conta ele, que já manteve coleção até de listas telefônicas. ''Juntei durante 25 anos. Tentei doar, mas não houve interesse. O carrinheiro levou tudo''.


