O volante do pânico
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Como outras jovens da sua geração, a pedagoga Daniele Vecchi, de 26 anos, decidiu tirar carteira de habilitação logo que completou 18 anos. Reprovou apenas uma vez no teste prático de baliza, mas tirou de letra as outras etapas do processo. Essa confiança também se reflete no seu trabalho, no qual muitas vezes precisa encarar tarefas que causariam pavor em muitas pessoas, como, por exemplo, falar em público.
No entanto, toda vez que ela se deparava com a possibilidade de dirigir um carro sozinha, suas pernas tremiam, o coração disparava e ela entrava em pânico. ''Se tinha alguém do meu lado eu ia tranquila, mas sozinha não tinha coragem'', lembra.
No começo essa situação não lhe causava incômodo, pois havia formas de contorná-la usando outros meios de transporte, como ônibus e táxi. Mas quando ela e o marido decidiram ter um filho, o que implicaria em alguém para levar e buscar a criança na escola, não houve escapatória e Danielle teve que encarar seu medo de frente. ''Quando meu marido insistia para eu pegar o carro eu chorava. Não queria comprar um carro pra mim porque sabia que ele ia ficar na garagem'', conta.
Felizmente para ela, o seu não era um caso isolado. Segundo a psicóloga Marilza Mestre, especialista em fobias, uma boa parcela de população feminina em idade produtiva sofre com o medo da direção. ''Não existem pesquisas sobre isso, mas os dados da clínica apontam algo em torno de 6% das mulheres'', afirma.
Os homens também são vítimas dessa fobia, mas numa proporção bem menor. Segundo Mestre, esse fato tem diversas explicações culturais. ''Nós mulheres passamos por uma fase longa e negra na qual ficamos afastadas das pessoas que poderiam interagir no espaço externo'', avalia. Com isso, o papel de motorista sempre esteve ligado a figuras masculinas. ''Quando um homem tem esse tipo de fobia ele sofre mais, pois é mais difícil mascarar esse fato e não é tão bem aceito socialmente'', avalia a especialista.
Existem dois tipos de fobia relacionada à direção. A primeira é aquela originada de um trauma, causado na maioria das vezes por um acidente de carro. Segundo a psicóloga Neuza Corassa, do Centro de Psicologia Especializado em Medos (Cpem), esse tipo corresponde à menor parte dos casos. O segundo tipo, no qual Daniele se encaixa, é ligado ao medo da avaliação alheia e corresponde a 95% dos casos.
Esse tipo de paciente geralmente teme muito mais causar incômodo ao outro do que de fato se machucar ao volante. ''Essas pessoas são extremamente responsáveis, sensíveis e bastante críticas consigo mesmas'', diz. A avaliação é confirmada pela paciente. ''Eu tinha medo de passar vergonha no trânsito, estava sempre preocupada com as outras pessoas'', lembra Daniele.
No ano passado, após passar um período protelando a gravidez por conta do medo da direção, ela decidiu procurar tratamento. ''É preciso ser muito humilde para assumir que não vai conseguir sozinha'', reconhece a pedagoga, que procurou então os serviços do Cpem.
Lá ela percorreu as quatro fases do tratamento, que envolvem o levantamento das ansiedades que podem estar sendo direcionadas para o carro; técnicas de relaxamento; identificação e hierarquização dos principais medos relacionados à direção, e a reciclagem, que consiste na condução de um veículo acompanhada por um instrutor, já que a maioria dos pacientes já possui carteira de habilitação. Essa etapa é completada posteriormente quando o instrutor segue em outro veículo o carro do paciente.
Após essa última fase, Daniele conta que conseguiu vencer seu medo e passou a ir sozinha de carro para o trabalho. Hoje ela dirige com prazer. ''Todo mundo diz que eu dirijo super bem'', diverte-se a motorista, que sente como se tivesse ''desatado um nó'' em sua vida. Sem a barreira que o medo da máquina impunha, ela e o marido deram continuidade aos planos de expansão da família e muito em breve terão um novo precioso passageiro no carro. O nascimento do bebê está marcado para junho.
SAIBA MAIS
Quem tem medo do volante?
- Na maioria dos casos é mulher
- Tem entre 30 e 45 anos
- É bem sucedida na profissão
- Tem grande senso de responsabilidade
- Preocupa-se com a opinião dos outros
Os medos mais comuns
- Achar que é o carro que domina
- Medo que o carro volte ao subir uma rampa
- Sensação de que vai ter pouco espaço para passar
- Medo de trocar de faixa
- Sente-se um ''intruso'' no trânsito
- Estacionar, manobrar


