O trabalho fora das paredes do escritório
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terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Carteiros, garis, vendedores ambulantes, guardadores de carro. Apesar das diferenças em relação ao tipo de ocupação, todos têm uma característica em comum: o trabalho ao ar livre. Para uns, condição ideal, especialmente, pela sensação de liberdade. Outros não hesitariam em trocar o ofício nas ruas por mesa e cadeira entre quatro paredes.
A reportagem da FOLHA foi às ruas de Curitiba conhecer um pouco da rotina desses trabalhadores para quem chuva ou sol não são, necessariamente, um empecilho para deixar o trabalho de lado.
Sérgio Roberto da Silva, 25 anos, tem a rua como escritório desde que começou a trabalhar, o que foi muito cedo: há 17 anos, quando tinha oito anos de idade, garantiu ele, e sempre no comércio de rua. Há dois anos, vem administrando o próprio ponto de venda e não pensa em fazer outra coisa. Tudo o que eu tenho hoje foi, em primeiro lugar, graças a Deus, e, em segundo, ao trabalho na rua, afirmou, orgulhoso, o vendedor ambulante.
Silva reconhece que a rotina é desgastante. Mas nem as dificuldades como a exposição ao sol e à chuva, à poluição, ao barulho dos carros os fazem mudar de idéia. Ele assegura que, além de ser um trabalho que lhe garante renda suficiente para sustentar as duas filhas, dá oportunidade de emprego, também, para outras pessoas. Tem as costureiras que trabalham para mim, a pessoa que puxa o carrinho, o estacionamento, exemplificou.
Faça chuva ou faça sol, Silva trabalha das nove horas da manhã às sete horas da noite, de segunda a sexta-feira. No sábado, o expediente termina às 18 horas. Pensar em outro ofício fora das ruas? Só se fosse algo muito vantajoso. Arrumar emprego em escritório para ganhar salário mínimo nem pensar. Prefiro continuar como ambulante, declarou.
O gari Valdecir Mora, de 40 anos, também, não se imagina abandonando a vassoura e o carrinho de lixo por um emprego que o obrigue a ficar entre quatro paredes. Na rua a gente se sente mais livre, ponderou. Ele parece não se importar com as variações climáticas e aponta solução para tudo. Se chover muito mesmo, a gente se esconde, disse o gari, apontando para a marquise de um prédio.
Mora diz que a maior dificuldade é com o trânsito. A gente tem que se cuidar com os carros, afirmou. Ele mesmo, em oito anos de trabalho nas ruas, nunca se envolveu em um acidente, mas contou que já teve vários colegas de trabalho atropelados. O escritório de Mora fica na Rua Visconde do Rio Branco onde também está a sucursal da FOLHA em Curitiba, entre as ruas Emiliano Perneta e Carlos de Carvalho. Das 14h30 às 22h40, ele é responsável por manter a via pública e calçadas limpas. Nesse período, chega a encher de quatro a cinco carrinhos com o lixo deixado nas ruas.
Somente um emprego faria o vendedor de frutas Luiz Fernando Colasso, 43 anos, abandonar as ruas: o de balconista em um sebo. Foi o melhor lugar em que trabalhei, durante três anos. Melhor do que estudar. Eu lia muito e conversava com várias pessoas, que sempre tinham algo a ensinar, lembra ele, saudoso. Meu patrão era como um pai para mim, mas tive que sair por causa do salário, que não era muito bom, contou.
Há 10 anos, Colasso divide os cruzamentos das ruas de Curitiba com outros colegas, vendendo frutas da época. Sai às 7 horas de casa em direção à Ceasa Centrais de Abastecimento do Paraná, onde compra as frutas e embala em caixas menores para depois passar o resto do dia oferecendo aos motoristas que param nos sinaleiros. Acostumado a conviver com as intempéries, para Colasso não há tempo ruim. Só não está em um dia bom quando dou azar de não vender nada, disse ele.
O que Colasso mais preza em sua atividade é estar livre e poder estabelecer o próprio horário, além de estar satisfeito com o que ganha.


