Historicamente, no bunker dos grandes conflitos, a cultura sempre foi uma oficial graduada. Com argumentos étnicos ou nacionalistas exacerbados consegue ser ainda mais belicosa que os interesses econômicos. Na guerra urbana, que transformou em campo de batalha as grandes cidades, a estratégia cultural pode ser uma arma eficiente contra a violência, o desemprego e a miséria na mira das Organizações Não-Governamentais (ONGs). Com essa investida, o terceiro setor tem se tornado aliado na batalha, que o Estado não consegue vencer sozinho, não impedindo o avanço de tropas, como as do narcotráfico.
A musicista londrinense, Magali Oliveira Kleber, professora do Departamento de Música da Universidade Estadual de Londrina (UEL), subiu o morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, visitando também a periferia paulistana para conhecer esse exército que está empreendendo uma revolução social no Brasil.
Com o objetivo de produzir a tese de doutorado ''A Prática de Educação Musical em ONGs: dois estudos de caso no contexto urbano brasileiro'', a Magali conheceu o projeto carioca Villa Lobinhos e da Associação Meninos do Morumbi, em São Paulo. O trabalho foi apresentado na conferência mundial de educação musical, Society for Music Education (ISM), na Malásia.
A objetividade da pesquisa aponta outra região, menos desértica que a explorada pelo documentário ''Falcão - Meninos do Tráfico'', produzido pelo rapper MV Bill, que não planta nenhuma flor de esperança na sepultura dos 16 mortos pelo tráfico entre os 17 falcões, que participaram das gravações, retratando de uma maneira desoladora a vida dos jovens de favelas brasileiras, que trabalham no tráfico de drogas.
Para compreender os efeitos do fenômeno das ONGs no Brasil, reunindo 5.023 organizações cadastradas pelo Mapa do Terceiro Setor, produzido pela Fundação Getúlio Vargas, como referência nacional e internacional de consulta, Magali parte dos contextos institucional, histórico e sociocultural, entre outros, desembarcando numa avenida de oportunidades que, ao mesmo tempo em que as ações sobem o morro ou a periferia, a cultura popular desce até o asfalto, conquistando salas de apresentações, teatros audiências de rádio e televisão, revelando o talento dessas comunidades.
''Essas comunidades não têm a tradição da academia, o que poderia ser um problema, que é superado pela capacidade de inventar. Pela própria característica institucional, as ONGs possuem essa mobilidade. Existe um outro lado da moeda negativo, já que por não terem muita estabilidade, as ONGs podem desaparecer com facilidade'', comenta Magali.
A musicista não ignora o mundo paralelo e que sobrevive na ausência dos aparelhos do estado, como demostrou o documentário, mas cobra também uma outra análise. ''Os moradores dessas comunidades se incomodam com essa avaliação. Eu também subi o morro, vendo outras coisas lá, como a valorização do folclore e a solidariedade de pessoas, simplesmente ao ajudarem os vizinhos a construirem os barracos''.
A musicista reproduz na tese o quadro da vida pintado pelo próprio adolescente: ''Eu pensavam como toda pessoa que vive nesse meio, no mundo das drogas, do crime, pensava assim: virar um bandido, andar com arma, assim seria uma onda, sabe qual é? Tirar onda, andar com arma, pegar mulher... Já que você é bandido, pegar muita mulher e isso seria tudo. E era assim que eu pensava, que a única coisa boa da vida era virar bandido, virar dono da boca, virar gerente''. Uma corrente do bem em que as tramas são formadas pelas ONGs lança o conceito pós-moderno de redes de organizações, o que torna o trabalho de cada associação mais sistemático.

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