Na pequena igreja de paredes grossas e poucos bancos, uma santa centenária vigia os fiéis. O chão é de um azulejo antigo - mas não o orginal da data da inauguração. Do lado de fora, é pintada de branca e tem detalhes num vermelho desbotado, num alaranjado desbotado. Completam a cena bucólica: uma casa de madeira, construída em estilo colonial; pios de galinha; cantos de pássaro; a poeira da estrada de terra; o tempo que parece passar devagar.
Ao lado da porta da pequena igreja - porta pintada de um vinho desbotado - há uma placa. É uma homenagem. Data de 18 de agosto de 1998. Reproduzimos: "Colônia Imperial de Santa Maria do Novo Tirol da Boca da Serra. 1878-1998. Há cento e vinte anos, imigrantes do Império Austro Hungaro e do reino da Itália vieram ‘fazer’ a América. Aqui aportaram em busca de seus sonhos e ideais. A todas aquelas famílias, a nossa justa e merecida homenagem no centenário dessa igreja".
Abaixo das formalidades políticas da homenagem, a lista do sobrenome de 59 famílias italianas que, naquele esquecido 1878, desembarcaram e se estabeleceram no Paraná. Dezenas de anos depois, o local se chamaria Piraquara, município da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), e abrigaria aquela que hoje é única colônia Trentina do Estado. As 59 famílias vieram da região de Trento, no Norte da Itália, para "fazer" a América. Até hoje, 131 anos depois, metade dessas famílias ainda tenta resistir aos avanços da tecnologia e à sedutora comodidade da vida na cidade. Lutam para que a memória dos antepassados - ainda tão forte nos traços dos rostos de muitos - não desapareça.
São, antes de italianos, trentinos - mesmo nascidos no Brasil. Na maioria das famílias que hoje formam a Colônia Trentina, os avós desembarcaram no Paraná ainda crianças. Fugiam da dureza da Guerra. Não sabiam, mas chegavam aqui para enfrentar a crueza da terra. Muitos se lembram de relatos dos avós recordando a fome que passaram ao chegar no Brasil. Ainda assim enfrentaram o que foi preciso, sempre tendo a agricultura como fonte de subsistência.
A agricultura, aliás, é o ponto de contradição e conflito da tradição trentina. Os descendentes sabem que é este o traço cultural que os une, é a identidade que os faz irmãos. Ao mesmo tempo, têm consciência de que a própria agricultura é o motivo pelo qual muitos abandonaram a colônia e trocaram o campo pela cidade. Os "desertores" saem em busca de estudo e de certas comodidades que a lida na roça muitas vezes não oferece. O resultado é uma colônia formada por velhos, agricultores, saudosistas.
Têm saudade de uma Itália que não conheceram, mas que corre no sangue. Lamentam o fim de um estilo de vida do século passado; acreditam que é preciso manter as tradições. Agarram-se nas lembranças, nos costumes, em objetos, como forma de manter viva as origens. Deixam, no entanto, transparecer na fala que esse desejo é também um meio de homenagear os sacrifícios da estirpe, que enfrentou a guerra, os dias de viagem em navios duvidosos, a terra desconhecida, a barreira da língua; tudo em nome da família. A todo instante os trentinos parecem se indagar: como deixar toda essa epopeia de sofrimento e dor se apagar?
Lucia Gaio Jess, 53 anos, descedente legítima dos trentinos, até derrama lágrimas quando pensa nas mudanças da colônia ao longo do tempo. "Dá uma tristeza...", diz já limpando os enormes olhos vermelhos no avental. Por algum tempo não consegue dizer nada. As tradições apagadas do DNA das novas gerações de trentinos doem fundo nela. Não quer acreditar que os novos não conseguiram manter os hábitos dos avós.
A tradição pela qual Lucia chora transcende à coisas menores. Ela não fala de música, não fala do idioma, não fala da comida (enquanto conversa, ela mexe com uma colher de pau uma enorme panela de risoto de frango). Suas lágrimas - algumas até tenham caído no risoto - são pelo sentido de fraternidade perdido. "Quando era criança, meus pais e avós acordavam domingo e iam para a igreja. Depois voltavam para casa para fazer o almoço. Depois do almoço, voltávamos para a igreja para mais uma oração. Depois tinha uma festa, um baile - eles chamavam de matinê. Ficava todo mundo junto; se divertia junto", recorda. A simples história do cotidiano dominical, Lucia completa com uma constatação: "Essa união se perdeu".

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