O som que vem das ruas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
André Amorim<br>Equipe da Folha 
Em uma cidade do tamanho de Curitiba a promoção da música deve ocorrer em dois sentidos. Ao mesmo tempo em que a 27 Oficina de Música concentra no Colégio Estadual do Paraná, na região central, mestres e alunos vindos de diversas partes do globo, um movimento inverso leva a música para bairros distantes da capital, através de oficinas realizadas nas Ruas da Cidadania. Essa dinâmica de concentrar e expandir - que se assemelha ao movimento de sístole e diástole do coração humano - também bombeia vida através da cidade irradiando nas comunidades a magia da música.
A possibilidade de estudar perto da sua casa encantou a costureira Marlene Javoschy, de 55 anos, que mesmo com o pé torcido sobe diariamente as escadas da Rua da Cidadania do Cajuru onde faz o curso de Teoria Musical. Aluna aplicada, ela não falta a nenhuma aula, faz os deveres de casa e senta-se perto do professor para absorver o máximo de conhecimento possível. A vontade de aprender faz com que ela abdique até mesmo da novela. ''Tem que ter prioridade naquilo que a gente gosta'', diz.
Esse não é o seu primeiro contato com a música. Marlene canta atualmente no coral da Catedral de Curitiba e no coral Pio X, de música sacra. Em anos anteriores ela fez cursos de teclado, canto e violão, todos promovidos pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC). Para ela, música faz bem à saúde.
Opinião semelhante tem o empresário Paulo Roberto Prata, 35, aluno do curso de violão da Oficina de Música oferecido na Rua da Cidadania do Cajuru. Mesmo com o horário apertado ele não deixa de ir às aulas. ''Saio do serviço correndo e venho pra cá'', conta. Um dos motivos para tanta dedicação é a percepção de que essa experiência está lhe fazendo bem. ''Como moro sozinho, minha mente está se ocupando de uma coisa que me traz satisfação, ao invés de pensar em coisas erradas'', avalia. Ele garante que essa experiência está lhe trazendo benefícios até na esfera profissinal, pois ao deixar as preocupações de lado durante as horas de folga, chega mais descansado ao trabalho.
Outra vantagem que Prata observa é a oportunidade de renovar as amizades. ''Às vezes a gente vive dentro de um círculo de pessoas e não sai disso'', diz. Através das aulas ele tem mudado essa realidade e conseguido trocar experiências com pessoas que têm interesses mais próximos dos seus. ''Sei que os frutos daqui vão render bons resultados'', acredita.
A amizade também está na pauta do aposentado Luis da Silva Machado, 61, aluno do curso de Teoria Musical na Rua da Cidadania do Cajuru. Mesmo morando hoje em Pinhais, região metropolitana de Curitiba, ele decidiu fazer o curso no bairro em que morou a maior parte da sua vida e onde deixou ''as raízes e os amigos''. Já nas primeiras aulas ele conta que encontrou alguns rostos conhecidos. A sensação foi de estar em casa, até porque nessa mesma Rua da Cidadania ele estuda teclado há três anos e há cinco criou no bairro um grupo vocal que canta oito músicas de sua própria autoria. ''Agora estou me aperfeiçoando'', afirma.


