O show tem que continuar
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Respeitável público!. Era assim que os apresentadores de circo costumavam abrir o espetáculo. O enunciado envolvia os espectadores com um clima de euforia e uma certa ansiedade quanto ao que estaria por vir. Era mágico! Hoje, os tradicionais circos de lona, com seus números acrobáticos, de mágica e muita palhaçada, talvez, não façam o mesmo sucesso de outrora. Mas, no que depender da família Queirolo, a arte circense jamais deixará de existir. Os Queirolo, que se instalaram em Curitiba na década de 40, mantêm no sangue a tradição e cultuam, até hoje, a arte de fazer rir.
Marilene Lopes Queirolo Buch, hoje com 49 anos, nasceu no picadeiro e morou embaixo de uma lona de circo até o cinco anos de idade. Filha de Lafayette Queirolo, ela conta que o pai que integrava a terceira geração dos Queirolo era o galã acrobata, que depois se transformou no palhaço Pif-Paf e mais tarde no Chic-Chic Júnior. Isso por conta da semelhança física com o tio Otelo Queirolo, que por muitos anos encantou o público curitibano ao interpretar o palhaço Chic-Chic.
Uma das principais lembranças de Marilene, da época em que a família excursionava com o circo, é de quando acabavam os espetáculos. A família toda se reunia depois dos espetáculos. Éramos muito unidos. As crianças tinham muita liberdade, relembra. A interação com as comunidades onde o circo se instalava é outra lembrança que acompanha Marilene. Como o circo era grande, criava vínculos por onde passava. Os vizinhos emprestavam móveis para as peças que eram encenadas e até participavam das apresentações. Em troca, ganhavam ingressos para assistir aos espetáculos, contou ela.
Em 1975, os Queirolo ganharam uma lona do então prefeito de Curitiba, Saul Raiz, para que pudessem retomar os shows circenses, já que o circo que tinham havia sido destruído durante um vendaval, em 1968. O Circo Chic-Chic como foi batizado, em homenagem a Otelo circulava pelos bairros da Capital, ficando por 30, 60 dias em cada um deles. Chegamos a ficar um ano na Vila Nossa Senhora da Luz. E quando saímos, as crianças escreveram cartinhas para que voltássemos, relatou Marilene. Antes de encerrar seus espetáculos, o Circo Chic-Chic ficou instalado em frente ao Passeio Público.
O pioneirimo no circo, no Paraná, estendeu-se, também, para a televisão. A TV do Paraná precisava de um programa próprio, afirmou Paulo Buch Neto, marido de Marilene que, ao pedir a filha de Lafayette em namoro, 1977, foi, literalmente, intimado a ingressar na atividade circense. Os Queirolo estrearam na televisão com programas como o Cirquinho Canal 6 e Capitão Furacão, no Canal 12. Em quase tudo (relativo ao circo), eles foram pioneiros, disse Marilene. No Cirquinho Canal 6, os Queirolo gravavam externas com todos os circos que chegavam na cidade.
Outros programas na televisão davam visibilidade aos Queirolo. Marilene estreou na telinha como apresentadora e, depois, interpretou a Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, na Escolinha do Chic-Chic. Por ironia, foi a própria televisão que ajudou a afundar o circo, opinaram Marilene e Buch. Antes, não tinha outro tipo de diversão. Era só o circo, afirmaram. Buch começou como Visconde de Sabugosa e depois incorporou o palhaço Chiquito, personagem que mantém, até hoje, com roupas e pinturas semelhantes.
Acidente abala carreira da família
Um acidente, em 22 de novembro de 1979, com o ônibus que trazia um grupo de 25 artistas entre eles Lafayette Queirolo de Foz do Areia para Curitiba abalou a carreira da família. O ônibus não tinha seguro. Meu pai ajudou todos os artistas. Nossa casa (a mesma em que a entrevista foi feita) virou abrigo para os acidentados, lembrou Marilene. A partir daí, o número de espetáculos foi diminuindo. A família direcionou seu trabalho para shows em empresas e aniversários.
Dezessete anos mais tarde, com a morte de Lafayette, rumores de que os Queirolo haviam deixado de se apresentar acabaram atrapalhando, ainda mais, os negócios da família. Meu irmão, Luiz, que trabalhava como mágico, teve que buscar outra atividade, revelou Marilene, que às duras penas conseguiu se manter na profissão, mas, o marido já era funcionário público do Estado.
Apesar de ter abandonado o picadeiro, Luiz Queirolo ainda mantém relação com o circo com sua empresa de locação de lonas. Marilene e o marido são sócios na empresa Queirolo e Buch Ltda, que organiza espetáculos circenses. Nos grandes espetáculos, contrato os artistas e toda a estrutura, explicou Marilene. A maquiadora Sueli Queirolo, filha de Sérgio Queirolo (irmão de Lafayette), que interpretava o Capitão Furacão, também mantém em sua atividade profissional, em Curitiba, uma relação com a atividade circense.
A esperança de que o show dos Queirolo vai continuar está em um dos filhos do casal Marilene e Buch. O jovem Marco Aurélio Queirolo Buch ganhou sua primeira maquiagem de palhaço aos oito meses. Hoje, com 22 anos, quer seguir os passos do avô. Nos shows organizados pela mãe, ele é palhaço Chic-Chiquinho. Para o pai, o nome não combina mais com sua estatura (1,80m) e, por isso, está mudando para Pif-Paf (o primeiro personagem interpretado pelo avô Lafayette).
Marco Aurélio conta que está fazendo um curso de hardware, mas sua paixão é mesmo o circo. Se der para viver assim a vida inteira, é o que eu pretendo fazer, diz ele.
Para Marilene, as leis de incentivo da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) são o que, hoje, mantêm acesa a chama do circo na Capital. Buch adiantou que pretende levar apresentações circenses para as nove regionais da Prefeitura de Curitiba e, para isso, espera ter seu projeto aprovado pela fundação.
Se me aparecesse uma fada propondo me transformar no menino de cinco anos que iniciava os primeiros passos na vida circense, eu aceitaria sem um segundo de reflexão. Mesmo que fosse para duplicar os sofrimentos, aumentar as lágrimas de dor e diminuir pela metade as alegrias que tive nesta vida de artista.
Nascemos no teatro e crescemos no circo. Jamais poderia abandonar este meio. Amo-o. Sinto-me vazio longe das lonas, dos risos e das expressões de espanto da platéia. Este é o meu mundo e a ele dediquei toda minha existência.
n Carta manuscrita por Otelo Queirolo o palhaço Chic-chic , encontrada em um dos arquivos mantidos pela família e reproduzida no livro O Circo e a Cidade.


