A Feira dos Livros Usados tem uma placa com um poema de Helena Kolody.
"Em vão percorro a cidade,
com meus claros olhos de antes.
As ruas não são as mesmas...
E são outros os passantes."
O dono, Irajá de Souza Reis, 66, herdou o sebo de seu pai. Claudio da Luz Reis criou a loja em 1942, o que a define como a mais antiga livraria de usados em atividade no Paraná. "O meu tempo já passou, por isso coloquei a placa aí", explica Irajá. A livraria, na Emiliano Perneta, tem 130 m2 e 40 mil volumes em estoque. Os nomes das estantes homenageiam os personagens que passaram por ali. Bento Munhoz da Rocha, Valêncio Xavier, Edilberto Trevisan. Este último, com seu nome demarcado na prateleira dos livros de história, está com 85 anos. É cliente desde os primeiros anos.
Claudio da Luz Reis (1909-1975) era funcionário dos Correios e Telégrafos. Teve um problema na perna e aposentou-se. "Meu pai era anticlerical, não gostava de padres. Mas tinha um amigo padre que visitou Paris e falou das barraquinhas de usados que conheceu às margens do rio Sena." Dali nasceu a ideia. Em 1942, um ano antes de Irajá nascer, inaugurava a Agência Atômica, primeiro nome da livraria, ainda na Praça Osório, entre dois comércios, o Bar Stuart e a Padaria Aurora. Claudio comprou o pequeno acervo de um sebo que havia fechado - cerca de 200 livros segundo Irajá. E alugou um corredor, que dividia com a entrada do pequeno edifício. "Era um espaço embaixo da escada. Vendia jornais e revistas novas e livros usados. No fundo, meu pai fazia o jogo do bicho." As filas, como lembra Irajá, eram enormes. "Tinha uma para as apostas e a outra para a polícia, que vinha ‘beliscar’."
Aos oito anos, começou a trabalhar com o pai. Nesse meio tempo, a loja já tinha passado por um segundo endereço, na Westphalen, com nome novo e tudo: Ao Desaperto. O clichê, a marca que ia nos livros que passavam por ali, mostrava um casal entrando por uma porta com uma pilha de livros e saindo por outra, com dinheiro na mão e felizes da vida. "O pessoal ia ali desapertar de dinheiro vendendo livros", reconhece, entre risadas. Pouco depois, rebatizada com o nome atual, Feira dos Livros Usados, a loja foi para a Voluntários da Pátria, 61, onde ficou por quase 30 anos. "Sou do tempo da Voluntários, em que o pessoal olhava e ia embora pensando: ‘Tá louco, livro velho!’." Ficava ali, a uma quadra do Cine Curitiba, onde os moleques trocavam gibis, como mostra uma das diversas fotos da cidade na parede de entrada da livraria atual. A pedido do pai, Irajá ia lá trocar gibis novos por outros mais velhos.
"Eu fiz parte da geração de garotos que trocavam gibis nas portas dos cinemas", recorda o colecionador Max Conradt Jr., 76. Não apenas ao acaso, mas por sua paixão pelo cinema, o Cine Curitiba passou a ser sede de sua empresa, a Maison Blanche, a partir de 1964. A casa de artigos infantis de Max perdurou até o início do século XXI. "Íamos até o sebo do velho Reis com nossas parcas economias e ele ficava muito feliz. Transmitia a impressão de que ficava muito bem por fazer aquilo. Era um vendedor de ilusões juvenis."
Hoje Max tem 19 prateleiras em sua casa com livros sobre o Paraná. Edilberto Trevisan, outro cliente citado nesta matéria, tem mais de 12 mil livros em casa. Em ambos os casos, uma parte razoável do acervo veio do sebo do velho Reis. Claudio da Luz Reis faleceu em 1975. Nesse momento, Irajá assumiu o negócio e levou a loja para a Emiliano Perneta 325, endereço em que permanece até hoje.

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