Curitiba- Mais um dia de treinamento de rotina entre os integrantes do grupo Tigre (Tático Integrado de Grupos de Repressão Especiais), em um local de Almirante Tamandaré, Região Metropolitana de Curitiba, especialmente preparado para os exercícios. Tiros a alvo fixo, simulação de estouro de cativeiro, cerco a criminosos em uma favela fictícia e mais disparos. Centenas de disparos. Pode parecer contrasenso, mas, em situações reais, o que esses policiais menos fazem é atirar. Em nove dos 17 anos de existência do Tigre, o uso de ''força letal'' não foi necessário. Ao mesmo tempo, o grupo ostenta o índice de 100% de solução em todos casos de sequestro em que atuou, com a libertação dos reféns sem pagamento de resgate.
De 1997 até o ano passado, nenhum disparo saiu das pistolas, fuzis e outras armas longas usadas pelo grupo anti-sequestro, inclusive, em três ocorrências em que os criminosos atiraram contra os policiais sem que estes revidassem. O ''jejum'' foi quebrado, em setembro de 2006, durante cumprimento de mandado de prisão de um sequestrador, em Curitiba. Ele reagiu, atirando contra os policiais, que revidaram os tiros, matando o criminoso. Junto de um comparsa, que foi preso dias antes, ele havia sequestrado um adolescente de 14 anos, no bairro Umbará, em Curitiba, e o mantiveram em cativeiro, durante 12 dias, em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
O delegado do Tigre, Edward Ferraz, lembrou que, antes dessa operação, o grupo precisou usar de força letal, em 1997, no desfecho do sequestro de um morador de Apucarana. Os dois sequestradores foram mortos durante troca de tiros com os policiais.
Situação semelhante aconteceu, em outubro do ano passado, em Foz do Iguaçu. Ao estourar o cativeiro, onde um empresário chinês foi mantido refém por sete dias, uma dupla de sequestradores atirou contra os policiais e foram mortos. ''As táticas que usamos são para impedir a reação por parte do suspeito. Atirar é sempre o último recurso'', destacou Ferraz, lembrando que a operação só é considerada ''perfeita'', quando o refém é libertado ileso e os criminosos presos. Ao todo, nove criminosos foram mortos em operações realizadas pelo Tigre, em toda sua história.
''Essa não é a parte que orgulha a gente'', confirma um dos policiais do Tigre - o de número 14 - ao relembrar da morte dos sequestradores na operação de Foz do Iguaçu. Entre o grupo, eles são números para se manterem anônimos fora dele. Para ''14'', libertar reféns é o que torna o trabalho recompensador e, também, motivo de orgulho. ''Sempre que você tira uma vítima do cativeiro, sente que está, realmente, fazendo a diferença'', diz ele.
A operação de Foz do Iguaçu, revelou o policial, foi uma das mais marcantes nos 13 anos em que faz parte do Tigre. Não, exatamente, pela ação, mas a sequência de fatos que antecederam o estouro do cativeiro. Um dia antes, a equipe acabou prendendo três assaltantes e outros dois traficantes em ações que não estavam programadas.
A experiência que ''14'' acumulou em mais de uma década como policial, aparentemente, não interfere em sua atenção durante o treinamento. A concentração nas orientações do instrutor faz parecer que ele está realizando o exercício pela primeira vez, assim como o restante do grupo, que se esmera para aprimorar cada movimento e se auto-pune com caras de reprovação e negativas com a cabeça, quando alguma coisa não sai com a perfeição desejada.
''14'' perdeu as contas de quantas operações já participou e não mostra nenhum constrangimento ao admitir que a sensação de medo ainda o acompanha durante as abordagens. ''Quem diz que não tem medo, não sabe avaliar o risco. A gente treina direto para, quando for a uma missão, saber controlar a adrenalina'', destacou o policial.
A preocupação em estar preparado para dar apoio às ações do grupo de elite levou o escrivão do Tigre a sair de trás de sua mesa e ir a campo treinar com os colegas. Por enquanto, não pensa em abandonar o trabalho burocrático, mas disse estar decidido a fazer o curso, que o credenciaria a participar das operações. ''Como policial, tenho que estar preparado para saber como agir em qualquer situação de risco'', acrescentou.
Os treinamentos rotineiros acontecem em diferentes locais da Região Metropolitana de Curitiba, em áreas rurais e de mata fechada para simular situações, por exemplo, de fuga de criminosos.

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