O Rádio em Londrina - Os reis dos programas de auditório no rádio
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sábado, 24 de abril de 2004
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
Reportagem Local
No século 21, é difícil imaginar que um programa de auditório fosse entretenimento sem que a audiência pudesse vê-lo. Nos anos 50 do século 20, era difícil imaginar que décadas depois alguém pudesse achar a idéia absurda. As duas coisas aconteceram.
O imponderável no mundo das comunicações impediu previsões certeiras à longo prazo. Com idade de avô, o rádio divertiria seus netos com as surpresas de sua trajetória. Em Londrina, uma cidade do interior onde a TV regional chegou muito cedo, a metamorfose foi ainda mais rápida.
Da metade dos anos 50 a meados dos 60, os programas de auditório símbolos dos anos dourados viveram o apogeu e a migração quase completa de veículo.
Um gaúcho e dois paulistas poderiam ajudar o vovô no relato. Dois deles ganhavam a vida com o vozeirão, prerrogativa indispensável para ter o respeito do ouvinte. O outro se comunicava graças à habilidade das mãos a deslizar por uma sanfona.
Eles estavam a cerca de mil quilômetros da glamourosa Rádio Nacional, um dos mais poderosos meios de comunicação de todos os tempos no País. Mas a emissora carioca, base da propaganda política da Era Vargas, tinha potência para alcançar o novo eldorado, para influênciar seus locutores e artistas.
Enquanto o Brasil ia se urbanizando rapidamente e os meios de transporte iam se tornando mais e mais dinâmicos, o mundo da Rádio Nacional passou a ser itinerante. Suas estrelas e suas orquestras não deixavam de se beneficiar com a riqueza do interior.
Estas espécies de bandeiras da cultura de massa, chegavam ao pós-sertão londrinense aproveitando o intenso tráfego aéreo desde São Paulo. Era fácil, dizem os que acompanharam aquela fase, trazer até mesmo as apresentações mais caras. Sócio para a empreitada não faltava.
O gaúcho Aymoré Kley, 80 anos, funcionário de carreira do Banco do Brasil que se tornou célebre comunicador (primeiro no rádio e depois como pioneiro na televisão), era uma das vozes que tinha o privilégio de anunciar nomes da magnetude de uma Dalva de Oliveira, de um Herivelto Martins, de um Grande Otelo, de uma Emilinha a relação é extensa Marlene, Ivon Cury, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, a dupla Alvarenga e Ranchinho e muitos outros que formavam a cena da música popular brasileira em meados do século passado.
Kley lembra que as despesas eram repartidas. Com ajuda de patrocinadores (tantos que havia lista de espera) e do Grêmio Literário e Esportivo Londrinense, os artistas vinham nos finais de semana e faziam duas apresentações uma no clube e uma na rádio.
''Na verdade, a Rádio Londrina não era tão poderosa assim. Acabava se beneficiando com a agitação cultural da cidade. Para se apresentar no auditório, bastava apenas um contrato auxiliar'', explica Kley, apresentador do dominical Cassino de Atrações, onde ele começou a fixar a marca Pirajá, pseudônimo popularizado também no infantil Clube Raia Miúda.
Há teses mais picantes, como a do jornalista Walmor Macarini, por muito tempo o Patolino, pseudônimo do autor da célebre e corrosiva Coluna do Rádio, espaço de crítica radiofônica da Folha de Londrina nos anos 50 e 60.
Macarini comenta que a boataria era geral quando aportava algum artista de renome nacional em Londrina, então terra de diversão fácil. ''Se era mulher, diziam que vinha motivada por um amante rico. Especulava-se nomes de fazendeiros e tudo mais. Se era homem, diziam que era por causa das garotas da zona do meretrício. Comentavam mais: diziam que algumas destas profissionais eram de São Paulo e marcavam encontro aqui'', conta.
Independente da motivação, os artistas trouxeram para o Norte do Paraná, além dos vozeirões, o mundo da tietagem. No livro Da Rádio Londrina à Rádio Universidade - Uma história de muitas histórias, da pesquisadora Francisca Sousa Mota e Pinheiro, o locutor Antônio Marcos conta uma história emblemática desse ambiente.
Protagonista: Cauby ''O Astro Rei dos Auditórios'' Peixoto. Para escapar de ''fãs enfurecidas'', o cantor carioca usou uma passarela de madeira nos fundos da Rádio Londrina até alcançar, ileso, a salvação próximo da caixa d'água da Avenida Higienópolis. Como sempre, contou Marcos, não se sabia se todas as garotas que compunham a turba agiam espontaneamente ou se tinham interesse financeiro, de olho no cachê oferecido pelo controvertido Di Veras, agente do cantor e marketeiro de primeira.
''Era uma época extraordinária. Nos espelhavamos no que havia de melhor no rádio paulista e nosso auditório era um dos mais bonitos do rádio brasileiro'', conta orgulhoso o advogado paulista Augusto dos Reis Pinto, o homem que teve a incumbência de substituir a marca Pirajá no comando do Cassino de Atrações, programa que durou até os primeiros anos 60. Augusto Reis (seu nome profissional) ensina que o principal macete para manter o ouvinte em sintonia com a ebulição do auditório era manter-se animado o tempo todo e impor um ritmo rápido na locução.
''Eu tinha uma voz muito bonita e isto contava muito, embora mantivesse um estilo sóbrio''. O advogado conta que tudo era muito bem ensaiado: calouros, quadros humorísticos, conjunto musical, variedades. A fórmula continuou vencedora por anos e fazendo de Reis uma celebridade. ''No meu auge, dizia brincando: na cidade tinha o delegado, o prefeito, o arcebispo e eu'', exagera. O fato é que Reis chegou a ser aliciado para a política partidária, mas decidiu recusar todas as propostas.
Kley, o diretor artístico da ''Toda Poderosa'', sentiu na pele outro tipo de popularidade depois de estrear na televisão. Mas lembra que a química do público era a mesma no rádio. ''Havia macacas de auditório e um animador bom sabia contagiar o público e o ouvinte ao mesmo tempo'', diz o velho Pirajá, que hoje ouve muito pouco rádio. ''O rádio que eu gosto é o rádio da minha época''.


