O RÁDIO EM LONDRINA - As muitas vozes de um sessentão
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de abril de 2004
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
ZYD 4. O prefixo da Rádio Londrina já era conhecido na cidade quando foi expedido a certidão de nascimento das transmissões radiofônicas locais.
A emissora já operava há pouco mais de dois meses em regime experimental a rádio já era ouvida desde 11 de setembro quando foi inaugurada em 15 de novembro em uma cerimônia com a presença de autoridades, entre elas o então prefeito, o capitão Aquiles Pimpão Ferreira, e representantes dos primeiros patrocinadores.
Os irmãos Santiago, Eufrosínio e Itagiba, pleiteadores da concessão e primeiros proprietários do veículo, doaram a receita do programa inaugural (cerca de Cr$ 18,7 mil) à Santa Casa de Misericórdia e aumentaram ainda mais o vínculo com a sociedade da época.
''O grato evento constituirá motivo de grande júbilo para toda a Londrina, pois que a nova emissora, durante todo o período em que operou em fase experimental, soube colher as maiores simpatias entre nós (...)'', comentou o jornal Paraná-Norte na véspera da inauguração.
O estudo da professora da UEL, Francisca Sousa Mota e Pinheiro, mestre em Comunicação Social com a dissertação ''O rádio enquanto mídia. Uma análise da situação em Londrina'', de 1991, base do livro ''Da Rádio Londrina à Rádio Universidade Uma história de muitas histórias'' (1998), continua sendo a principal fonte de pesquisa para conhecer a história do veículo.
No livro, a autora atribui a consolidação e o crescimento da primeira emissora a partir da mudança de comando, assumido por um pool de empresários de Ponta Grossa, formado por Raul Pedro Dal-Col, Achilles Dal-Col, Egídio Dona, Ismael Dornelles de Freitas, Henrique Dornelles de Freitas e Antônio Vendrami.
Os primórdios foram marcados pela censura e forte influência da propaganda do Estado Novo de Getúlio Vargas e pelas dificuldades técnicas.
Enquanto no aspecto sócio-político, a ameaça era a estrutura do todo-poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão que chegava a exigir atestado de boa conduta dos locutores. A intromissão era ainda maior porque o mundo vivia tempos de guerra. Havia até mesmo a obrigatoriedade de se apresentar um programa dedicado aos pracinhas que lutavam na Itália. No aspecto técnico a dificuldade era a fragilidade da rede elétrica.
Como ainda não havia transistor e tampouco rádio de pilha, os aparelhos ficavam mudos a cada pane. E eram muitas panes. Portanto, nem o fato da rádio contar com um gerador próprio significava a solução do problema.
Repórter do Ar (noticiário), Ave Maria (religioso), Rádio Lar (feminino) e a Hora Social (prestação de serviço) foram alguns dos programas de maior projeção da primeira fase.
Segundo a autora, algumas outras atrações já demonstravam a preocupação da emissora em levar informação e cultura à população. Alguns exemplos: o Programa do Livro (resenhas de obras literárias), o Programa Seleto (de músicas clássicas) e Quer você saber? (perguntas dos ouvintes com respostas do apresentador sobre usos, costumes e fatos históricos de vários países) e Na Rota da Civilização (descobertas científicas, artes, cultura e história). Carta Sonora e Esquetes Sofisticados eram os humorísticos mais populares.
Em 1946, a Rádio Londrina mudou de endereço. Saiu da Rua Santa Catarina e passou para a Rua Goiás. Nas novas instalações, a emissora deu um salto de importância com a construção de um espaço para o público, de 120 lugares. Começava em Londrina a era dos programas de auditório. Os de maior sucesso eram Cassino de Atrações e Clube da Raia Miúda (infantil).
Na década de 50, quando Londrina recebeu o título de Capital Mundial do Café e era um dos principais eldorados econômicos do País, a Rádio Londrina soube aproveitar o fato de ser a única transmissora local para expandir-se. Além de uma abrangente carteira de anunciantes locais, o Norte do Estado já chamava atenção até mesmo dos anunciantes nacionais.
Os próprios anúncios demonstravam o cenário de euforia econômica e de como o aparelho de rádio causava fascínio. Confira este texto: ''A senhora fica apreensiva porque seu marido sai todas as noites? Prenda-o em casa, adquirindo um rádio Philco de cabeceira nas lojas famosas de Hermes Macedo''.
Os musicais já eram o carro-chefe da programação e refletia o espírito de uma cidade em ebulição, uma cidade de migrantes e imigrantes. Tinha de tudo: músicas italianas, tango, música clássica, orquestras, música regional e grupos vocais. A vida boêmia que marcou os Anos Dourados em Londrina também era simulada no estúdio radiofônico. O Night Club chegava a reproduzir com sonoplastia barulho de copos e de garrafas.
Segundo depoimento do radialista pioneiro Antonio Marcos registrado no livro, a Rádio Londrina era, na década de 50, o principal centro cultural e artístico de toda a região. ''Era também uma das grandes expressões radiofônicas do Sul do País, tornando-se notável pelos grandes espetáculos que eram apresentados no seu auditório. Orlando Silva, Emilinha Borba, Nelson Gonçalves, Carlos Galhardo, Ângela Maria, enfim, todos os grandes cantores do País passaram pelo auditório da Rádio Londrina, sem que fossem esquecidos os talentos da cidade''.
A sede definitiva da ZYD 4 transformou-se em símbolo desta grandiosidade. O prédio próprio na Rua Quintino Bocaiúva (ainda hoje o endereço da emissora) foi inaugurado com pompa em 15 de novembro de 1955 com a apresentação da célebre Companhia de Carlos Machado e suas Vedetes. Os ouvintes se impressionaram com o novo auditório com ''512 poltronas confortáveis'' (hoje incorporado ao Hotel Crystal), como era anunciado na ocasião. Em 1957, conta o livro de Francisca, o auditório funcionava três vezes por semana.
Mas a Rádio Londrina já não era a única. O veículo já havia se consagrado, abrindo novos mercados de anunciantes, atraindo concorrentes. A Difusora foi inaugurada em 1955 e a Paiquerê em 1957. As duas, entretanto, passaram a concorrer com a chamada ''Toda Poderosa'' somente na década seguinte, quando surgiram outras emissoras e a TV Coroados.
A chegada da televisão e seu impacto inicial praticamente desmobilizaram o público de rádio durante os anos 60. As radionovelas e os programas de auditório migraram para a telinha junto com os anunciantes. ''Vitrolão'' e futebol especialmente no final de semana passaram a dominar quase todas as frequências.


