O QUE VOCÊ DISSE? - A difícil arte de falar e ser ouvido
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de março de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Situação um: a novidade chega ou o problema vem e, de repente, você se vê diante de uma pessoa, contando o ocorrido. Minutos depois, você faz a pergunta: ''Está ouvindo o que eu disse?'' O aceno é negativo. Prontamente, o ouvinte se desculpa. Há sempre um Imposto de Renda, IPTU, IPVA, ou contas de água, luz, telefone e gás para desviar a atenção até do interlocutor mais simpático... Não?
Situação dois: o relato transcorre até a primeira vírgula. De repente, o ouvinte interrompe e já pronuncia o típico ''pois você não sabe o que aconteceu comigo!'' Em tempos de conversa truncada, difícil resistir a atropelar o outro com a própria história. É bem assim, as pessoas escutam, mas não ouvem.
Habituada às reclamações envolvendo a conversa truncada, a psicóloga Cassiana Rossini Calixto Chiusoli faz aquilo que muitos se dispõem, mas poucos cumprem: ouvir. ''O achômetro tem tomado conta das relações humanas. Saber ouvir o que o outro está falando sem vincular à própria história de vida, sem um palpite, é tarefa das mais raras, nos dias atuais''.
Entre as emoções que regem o mundo moderno, Cassiana elenca o medo, no campo das exemplificações. ''Em caso de assalto, uma pessoa pode desmaiar; a outra, ficar mais tranquila e a terceira se debater com o autor do delito. A partir daí entra a questão do significado. Cada qual tem uma tolerância para uma situação de vida, que deve ser respeitada''.
Partindo da tolerância, a psicóloga londrinense, implementando a psicoterapia, aponta resultados interessantes, de situações simples a casos mais complexos, como a recuperação de dependentes químicos. ''Se tenho um familiar drogado e o vejo como tal, não vejo a pessoa, apenas foco o problema. Aí está o erro: sem capacidade de ouvir, de tentar compreender e ver o que o outro está sentindo, vou apenas criticar e julgar. É muito mais difícil se libertar de um vício moral do que de um vício químico''.
A psicoterapia, aliás, é citada não como uma via de regra, mas como uma possibilidade. ''A psicoterapia ajuda a pessoa a se conhecer. E só o autoconhecimento concede o desprendimento de se colocar no lugar do outro e compreender aquilo que ocorre com o vizinho''.
Esse autoconhecimento, acredita Cassiana, combate aquela apontada como a febre da sociedade moderna: a autopiedade. ''Rotineiramente, ouvimos ou falamos que somos desse ou daquele jeito por causa daquela pessoa. É o clássico eu sou assim porque você me fez assim, tenham dó de mim'', argumenta.
A virada, de acordo com a psicóloga, se dá quando a pessoa, além de se descobrir, assume suas responsabilidades. ''O responsável por sua vida e seus atos é somente você''. Nos exemplos a seguir, a reportagem da FOLHA visitou um casal, em Cornélio Procópio, que não hesita em ''discutir a relação'' e partilhar a conversa em seu divã oficial - o sofá da sala -; e uma família, em Londrina, que, após um caso de alcoolismo e uma perda, fortaleceu a união, respeitando a individualidade e apostando no diálogo.


