A atleticana Juliane Saldanha, 31, vai cantar em homenagem ao centenário do Coritiba Foot Ball Club a partir da meia-noite e 55 minutos do dia 22 de fevereiro. Ela, os mais de 400 integrantes da escola Acadêmicos da Realeza e o público do Carnaval de Curitiba, que somou 15 mil pessoas na Avenida Cândido de Abreu em 2008. "Hoje a minha Realeza muda as cores/ Para cantar os 100 anos de paixão/ Que nasce com a primeira bola/ De um jovem descendente alemão", segue a primeira estrofe do enredo "Do Alto da Glória para 100 anos de História", em homenagem ao clube.
A escolha do tema foi em agosto, a partir de sugestão do vice-presidente da escola, o coxa-branca Luiz Godoy. "A princípio relutamos bastante, mas soubemos separar a paixão pela escola e pelo clube", explica a atleticana Juliane, que é a secretária da agremiação. "Daqui a 15 anos podemos fazer o centenário do Atlético." Para apaziguar os ânimos dos integrantes não-coxas, a diretoria assumiu uma estratégia pacifista. Duas alas, com 25 integrantes cada, vão representar as cores dos adversários Paraná e Atlético. "Pois um time de futebol não existe sem rivais", lembra o dentista gaúcho Paulo Schneumann, 46, presidente e um dos fundadores da Acadêmicos da Realeza, criada em 1997 e atual campeã do Carnaval de Curitiba.
O seu time, o Internacional, também completa cem anos em 2009 e será tema de enredo em Porto Alegre. O clube, que chegou a procurar escolas do Rio de Janeiro, patrocinará o desfile. No caso de Curitiba, o time de futebol ainda não confirmou se apoiará a Acadêmicos da Realeza. Antes do Atletiba, no domingo, 35 integrantes da bateria da escola entraram em campo acompanhados de duas passistas e cantaram o enredo junto com a torcida coxa-branca. O desfile foi inicialmente orçado em R$ 64 mil, sendo que R$ 25 mil destes vem de apoio da Fundação Cultural de Curitiba, por meio de edital. As outras duas escolas do grupo A, Embaixadores da Alegria e Leões da Mocidade, recebem o mesmo valor. As três do grupo B, R$ 18 mil.
"Ninguém faz Carnaval com R$ 25 mil", explica o analista de sistemas Sérgio Condessa, 49, vice-presidente da Leões da Mocidade. Ele prefere não revelar o valor que sua agremiação vai gastar. As três escolas que disputam o título do grupo A buscam outros meios de arrecadação além do apoio oficial. A Embaixadores da Alegria, a mais tradicional em atividade, fundada em 1948, vai desfilar o enredo "Um beijo no seu coração", em um Carnaval que deve somar gastos entre R$ 35 mil e R$ 40 mil. Parte desse valor vem de shows realizados durante o ano por integrantes da bateria e da festa do Vermelho e Branco, que será realizada na Sociedade Operário, no dia 13.
Depois de um tetracampeonato, a Embaixadores perdeu o título de 2008 para a rival Realeza. "Foi reflexo do salto alto. Agora, colocamos o pé no chão", afirma a professora e presidente da escola, Suzy D’avila, 46. Ela aproveita e provoca. "Em 2008, perdi para mim mesma. Em 2009, não vou perder para ninguém."
Tal como o futebol, o Carnaval de Curitiba apresenta uma rivalidade surpreendente. E recheada de requintes que, por momentos, beiram o fanatismo: assim como no Rio de Janeiro há tensão na hora da contagem dos pontos e relatos de ameaças a membros das diretorias adversárias. Já a tradição, esta carrega suas histórias. Eudina Duarte Prestes, 82, a "Ondina", é costureira da Embaixadores e desfila na ala das baianas há 25 anos. "Eu, meu velho, filho com a esposa, os netos e agora os bisnetos." Mário, seu marido, companheiro dos primeiros anos na escola, faleceu há 20 anos.
Quem desfila pela segunda vez é o bisneto Júlio César, de um ano e dois meses. Eudina costura para a escola de segunda a segunda no barracão no bairro Campo Comprido, que pertence à família D’avila. "Quando chega a época do Carnaval, fico contando os dias para começar a costurar." Em 2008, ela saiu da avenida para o hospital. Para evitar problemas, neste ano, Eudina desfila pela primeira vez em um carro alegórico, à frente das baianas.
A sua escola vai tratar do beijo, da Índia à Rua XV. "Outra vez o seu lugar ao sol, relembrando o ‘beijo da Gilda’/ Faz acontecer uma transformação... É a arte imitando a vida." A estrofe final do enredo remete ao personagem de Curitiba que marcou história e cobrou pedágio dos que não queriam receber seus beijos. "Em Curitiba você não vê pobre, negro e viado. A Gilda mostrou que existia, sim, pobre e viado na rua", defende a presidente Suzy. Os membros da escola se mostraram receosos para homenagear um travesti e, de acordo com Suzy, foram convencidos quando assistiram ao filme "Beijo na Boca Maldita" (2007), de Yanko Del Pino, que conta a história de Gilda, falecida em 1982. (Continua na página 3)

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