O que nos torna adultos
As celebridades dizem, como afirmou Adriane Galisteu, em entrevista às páginas amarelas da Veja, no início da década, Eu passo que nem um trator sobre certas coisas. Os cidadãos que não têm a fama e os holofotes sobre si incorporam. Seria o fenômeno do eu me basto benéfico? Ou verdadeiro? As emoções estariam em extinção? Para a psicóloga Sonia Vaz, a resposta é negativa.
O sentimento, ao contrário do que as pessoas imaginam, é racional, não foge da razão. Portanto, as emoções, que alteram todos os níveis de adrenalina, trazem o arrepio e toda uma reação física, não têm como serem evitadas, afirma.
Segundo Sonia, o que a sociedade moderna faz, atualmente, é maquiar as emoções. Existe uma grande desonestidade em relação às emoções. Hoje, da mesma forma que maculamos o choro, em um local dito não apropriado, lançamos mão do sorriso quando o entusiasmo é zero. Na verdade, disfarçamos e nos esmeramos tanto nesse exercício que não sabemos mais o que sentimos, em muitos casos.
O que antes era uma neurose, de acordo com a psicóloga, hoje beira a psicose. Como ninguém quer sentir raiva, ciúmes ou inveja, dentro da psicose a pessoa que representa o amor, a alegria e a tristeza não consegue acessar mais essas emoções. Trata-se de um fenômeno coletivo entre a civilização.
Sonia faz a analogia. Temos, na história da civilização, o deus Votan, que usava o cajado com todas as Leis e castigava quem não as cumprisse. Esse mesmo Deus decidiu construir um templo para ser adorado e contratou dois gigantes para executá-lo, com seu nome, em letras garrafais. Como pagamento, Votan ofereceu a deusa da vida, da intensidade e do amor. Já vimos esse filme, não?.
Sob a ótica da psicóloga, os votans estão espalhados pela sociedade contemporânea, ocupando os mais altos postos. Os votans de hoje sacrificam o belo da vida, a intensidade da vida e o amor para construir um templo. Depois, vêm para a terapia e dizem que têm tudo. Só não encontram o sentido para a vida, já cansei de ouvir isso.
A resposta a todas as indagações? Sonia tem na ponta da língua. A vida dessas pessoas tornou-se sem sentido porque elas se desconectaram de seus instintos, representando por meio dos sentimentos o tempo inteiro. Vale ressaltar o que sempe digo: se a pessoa quer ficar longe de conflitos, é melhor morrer. Só quem está no cemitério está livre dos conflitos.
Nesse sentido, os prognósticos não são os melhores. As emoções soterradas têm vazão de alguma forma e vêm após um processo de somatização. Por conta disso, hoje vemos os índices de depressão, síndrome do pânico e demais fenômenos extrapolarem, indica a psicóloga.
Entre a juventude, o fenômeno é de inversão, considera Sonia. Estou realizando um estudo, nos últimos anos, que mostra o comportamento dos pais em relação aos filhos. Os pais, que disfarçam não ver a miséria e o sangue nas ruas e tomam uma droga qualquer, um Paulo Coelho, por exemplo, nunca deram tanto amor aos seus filhos. O resultado é que saímos de uma juventude marcada pela apatia e temos jovens indiferentes a tudo o que sucede e sem ideais.
Como recomendação aos futuros adultos, Sonia aponta o equilíbrio. Os instintos não podem perder, jamais. E nem ganhar. Administrar isso não é fácil e é o que nos torna adultos. Os instintos que nos levam a pensar em matar o vizinho não podem ser postos em prática. O que podemos fazer é admitir essa raiva. Quando admitimos o que sentimos, para nós mesmos, a razão vem em nosso socorro. Uma razão sensibilizada, de forma acessível e amenizadora, que nos faz até rirmos de nós mesmos. (T.N.).





