''Je veux parler le langue française.'' Com esta saudação, o morador de rua Abdul Mostfa Rachid, 41 anos, apresentou-se à reportagem da Folha. Conhecido como ''Gringo'' pelos companheiros da praça Santos Andrade, ele conta (e escreve para provar) que fala fluentemente o francês, o inglês e o espanhol e arranha árabe, alemão e português.
Rachid nasceu e estudou no Marrocos, há sete anos veio para o Brasil onde casou com uma brasileira e teve duas filhas. Nessa época, dava aulas de francês e inglês, mas, como muitos moradores de rua, perdeu tudo por conta do alcoolismo.
Hoje, ele dorme em uma folha de papelão, no lugar que for, desde que esteja ''chapado de cachaça''. Ganha comida, cigarros e mendiga alguns trocados para comprar a bebida.
Além das necessidades do corpo, Rachid procura dar alimento à alma, através de concertos gratuitos e livros emprestados da Biblioteca Pública do Paraná. Mas a falta de interlocutores com quem possa conversar sobre temas como arte e literatura lhe causa grande sofrimento. Entre canções de Steve Wonder e poesias de Baudelaire, declamadas na língua original, ele conta como é difícil a vida na rua: ''tem muita pilantragem, muita violência''.
Suas perspectivas para o futuro são desoladoras. ''Pra mim acabou, o que eu posso fazer?'' Apesar do pessimismo, ele afirma não ter dúvida da existência de Deus, que considera seu primeiro amigo da rua. (A.A.)

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