Barba e cabelos brancos, olhos claros e bochechas rosadas. Mais que características físicas que lembrem o bom velhinho, os candidatos a Papai Noel têm que esbanjar simpatia e ter muito jogo de cintura para se sair bem das situações de saia-justa em que os pequenos, invariavelmente, os colocam. Em muitos países, inclusive no Brasil, há escolas profissionalizantes para transformar pessoas comuns no lendário São Nicolau ou Santa Claus. Mas, Luimar Narciso Staben, de 59 anos, aprendeu o ofício sozinho e, há sete anos, encanta as crianças curitibanas, que se vêem diante do Papai Noel para fazer, pessoalmente, seus pedidos de Natal.
Staben conta que ao vestir a roupa vermelha, percebe uma ''força espiritual'' que o faz incorporar mesmo o personagem. A tarefa de ajudar a manter entre as crianças a magia do Natal dura de 40 a 45 dias. Além de disposição para encarar a jornada de quatro a cinco horas no shopping em que trabalha - há quatro anos está no Mueller, em Curitiba - e muitos sorrisos para posar para as fotos, seu segredo é tomar muita água para não desidratar embaixo da pesada roupa.
Bem que o Brasil podia adaptar a caracterização do Papai Noel para um figurino mais apropriado ao calor tropical. A sugestão foi de uma das crianças que conversou com o Papai Noel, dias atrás, contou Staben. ''Quando o senhor vier do Pólo Norte pra cá, traga bermuda e chinelos'', disse a menina.
Em sete anos, Staben já ouviu muitas histórias, algumas engraçadas, outras tristes. A que mais o comoveu foi a de um menino que pediu ao Papai Noel uma ambulância. Ao entender que se tratava de uma ambulância de verdade para o pai do garoto que havia acabado de morrer, Staben conta que teve que segurar as lágrimas. Era é a primeira vez que se passava pelo personagem e confessa que não estava preparado para lidar com situações adversas. ''Mexeu muito comigo. Respirei fundo e disse a ele que Papai do Céu tinha levado seu pai para perto dele e que, então, ele rezasse todas as noites, pois lá do céu seu pai estaria cuidando dele'', relembrou com os olhos cheios de lágrimas.
Outra situação que o marcou, lembrou Staben, foi a de uma mãe que pediu para que ele conversasse com a filha, já adolescente, que tinha pavor de Papai Noel. Depois de alguns minutos de conversa, a garota se rendeu ao carisma do bom velhinho.
Staben é comerciante. Tem uma mercearia, onde trabalha o restante do ano. Volta e meia é chamado de Papai Noel na rua ou em seu comércio, mas para não estragar a fantasia das crianças, diz que é um amigo do lendário personagem. Ele revela que, apesar de suas características físicas, jamais havia pensado em interpretar Papai Noel. Agora, nem pensa em abandonar o traje vermelho e branco. Ao ser questionado sobre até quando pretender repetir a dose, a resposta vem de imediato: ''Até quando Deus permitir''.
Assim como Staben, o colega Luiz Carlos Ramalho, de 52 anos, também, começou a atuar como Papai Noel por acaso. Estava desempregado e quando foi abordado na rua por uma agenciadora, não pensou duas vezes antes de aceitar o convite. Tradutor por profissão - fala cinco idiomas e traduz três-, um dos mais novos papais-noéis curitibanos - começou a pouco mais de três semanas- revela-se encantado com a nova atividade. ''É muito gratificante ver o sorriso no rosto das crianças'', diz ele.
O que tem chamado a atenção de Ramalho são os pedidos de presente dessa nova geração de baixinhos. ''São crianças que não têm nem 10 anos de idade e não querem mais carrinho, boneca. Querem laptop, MP3, MP4, Playstation'', revela Ramalho. ''E não é o laptop do Homem-Aranha ou da Xuxa, é laptop de verdade'', reforça o aprendiz de Papai Noel.
Ramalho também tem se impressionado com outros tipos de pedidos, ainda mais inusitados, quando partem de gente de tão pouca idade. ''Algumas crianças não pedem brinquedo. Pedem paz, saúde para a família e para que o mundo cuide mais do meio ambiente'', relata ele. Por essas e outras experiências, que Ramalho afirma querer continuar vestindo o personagem, ainda, por muitos natais.

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