O PERIGO RONDA A COZINHA
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de setembro de 2004
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Pode colocar comida quente na geladeira? É verdade que não se deve dar mel a crianças menores de um ano? O ovo pode ser guardado na porta da geladeira? Recongelar alimentos é correto? O congelador da geladeira garante que a qualidade da comida congelada? Lavar verduras, legumes e frutas em água com bicarbonato tira o agrotóxico dos produtos? É correto deixar as hortaliças de molho em água com vinagre antes de comê-las?
Essas são apenas algumas dúvidas e mitos que rondam o espaço da cozinha. E a contar pelo alto grau de desinformação da maioria das pessoas, o risco de se adquirir alguma doença veiculada por alimentos, as chamadas DVAs, é constante. O biomédico Roberto Martins Figueiredo, uma das principais autoridades brasileiras em saúde pública, e considerado o maior especialista em higiene de alimentos do País, é ainda mais drástico. ''No mundo existem três grupos de pessoas: as que já tiveram DVA, as que têm e as que terão'', afirma.
Para justificar sua posição alarmista, ele cita dados da Organização Mundial de Saúde. Anualmente 1,5 bilhão de crianças com menos de 5 anos têm diarréia, sendo que 3 milhões acabam morrendo. Dessas, 70%, ou 2,1 milhões morrem devido a doenças diarréicas causadas pela ingestão de alimentos contaminados.
As estatísticas são impressionantes. ''Mais de 7 milhões de pessoas sofrerão de alguma DVA no próximo ano'', diz. Figueiredo lembra, no entanto, que 85% dos casos poderiam ser evitados simplesmente se as pessoas manipulassem corretamente os alimentos. Pela falta de instrução, segundo ele, muita gente comete falhas na hora de manusear sua comida e acaba fazendo parte desses dados significativos e preocupantes.
''Quando você fala em alimento contaminado, as pessoas logo ligam a comer fora de casa. O que elas não sabem é que 44% das doenças têm origem dentro de casa'', diz o biomédico, ressaltando que as donas de casa não estão preparadas para lidar com novas bactérias que vêm surgindo. Como exemplo, ele cita o caso de mães que dão mel a crianças com menos de um ano de idade por não saberem que a criança pode contrair o botulismo infantil. 16% dos méis, segundo ele, têm a bactéria ''Clostridiun botolinum'', que é inofensiva a pessoas maiores de um ano, que já possuem uma flora bacteriana intestinal capaz de impedir que essa espécie cresça. O que não ocorre com os bebês com menos de um ano. 5% do botulismo infantil é ocasionado pela ingestão do mel contaminado.
Crianças até cinco anos de idade fazem parte, inclusive, dos grupos de risco com maior potencial para pegar doenças veiculadas a alimentos, assim como idosos maiores de 60, mulheres grávidas e imunodeprimidos (pessoas com câncer, aids, transplantados, pós operatório, etc). Por isso, essas pessoas não devem comer alimentos crus ou semicrus.
Figueiredo explica, ainda, os riscos existentes na cozinha. ''Se perguntam qual é o local da casa com maior quantidade de bactéria, as pesoas respondem que é o banheiro, quando na verdade é a cozinha'', alerta. De acordo com ele, o uso de lixeirinha de pia é proibido. ''Quem inventou a lixeirinha só pode ter sido a Sociedade Protetora das Bactérias e Patogênicos Anônimos'', brinca, dizendo sério, em seguida, que a lixeira na pia significa o mesmo que cozinhar ao lado do lixo.
Outro foco de grande contaminação é a esponja de lavar louça. Ele recomenda que seja feita desinfecção diária, deixando a esponja de molho por cinco minutos em uma solução de um litro de água e duas colheres de sopa de água sanitária. Mesmo assim, a vida útil da esponja não deve ultrapassar uma semana.


