O perigo mora(va) ao lado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Luciana Pombo<br> Equipe da Folha 
O morador do bairro vê um garoto considerado diferente do outro lado da rua. Talvez um estereótipo do adolescente atual: calças grandes, quase nos quadris, boné na cabeça, chicletes na boca e fala arrastada. Não tem dúvidas. Atravessa a rua rapidamente evitando encontrar com o vizinho. Sem imaginar quem é o empresário aparentemente de sucesso que mora na casa ao lado. Vê uma movimentação diferente, como a chegada de equipamentos novos, mas nem imagina que ao seu lado pode estar um estelionatário, um receptador de produtos furtados ou roubados, um especialista em lavagem de dinheiro ou um líder do narcotráfico.
Foi o que aconteceu no bairro Boqueirão em Curitiba. Numa rua aparentemente tranquila, a Paulo Setúbal, os policiais do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) prenderam um dos líderes de uma quadrilha especializada em furto e desvio de carga e em assaltos a estabelecimentos comerciais e a clientes de bancos. A Operação Remédio Amargo prendeu 18 pessoas, entre elas: um delegado da Polícia Civil e o chefe de serviços de uma agência bancária. A diarista Juliana Pereira, de 25 anos, não poderia imaginar que ao lado de sua casa pudesse morar alguém considerado como ''criminoso''. ''É um bairro nobre. A impressão que a gente tem é que bandido não pode morar aqui. Nunca imaginei isso'', afirmou Juliana.
O aposentado Amauri César, de 52 anos, se diz um preocupado com a criminalidade na capital paranaense. Prefere não pensar, mas sabe que o ''inimigo pode estar morando ao lado''. Todos os dias, ele orienta a mulher e os filhos a evitarem conversar com estranhos. ''A gente sempre diz que quem vê cara, não vê coração. A gente está muitas vezes perto do inimigo e não sabe. Eu fico muito preocupado, cuidando com quem converso. O Mundo está perigoso. Dentro de casa já está perigoso. Só a gente mesmo pode se ajudar e o caminho é se manter longe dos desconhecidos'', ensinou o aposentado.
A aposentada Maria Olinda Aparecida, de 68 anos, disse que se sente segura dentro do condomínio horizontal onde mora. Ela relata que os vizinhos dormem todos de portas abertas, sem se preocupar com a criminalidade. Mas do lado de fora do condomínio, o medo a acompanha. ''A gente sabe que está sempre correndo riscos. A gente tenta ficar atenta e sempre pede socorro aos amigos quando acha que pode correr perigo'', disse Aparecida. A aposentada só teme pela segurança dos netos - que gostam de passear pelo bairro sozinhos. Ela reclama que os policiais militares do Projeto Povo não passam pela região - o que gera sensação de insegurança. ''Eles vêm aqui de 15 em 15 dias. E os outros dias? Dá muito medo!''.


