Abrir um bar não é tarefa fácil. O investimento é alto e pesquisar a identidade visual do lugar exige esforço. Os poucos bares que conseguiram sobreviver durante décadas usam este diferencial e continuam com a decoração antiga. O clima rústico, com objetos difíceis de encontrar, propõe um ambiente característico e que chama a atenção. De olho nesse sucesso, novos investidores do setor buscam nos objetos que não existem mais a chance de se tornarem conhecidos entre o público. Mas a tarefa nem sempre é fácil. Encontrar a decoração ideal requer paciência e muita pesquisa. Confira alguns bares novos e outros antigos que guardam um pouco da história da forma de viver de antigamente.

Bar Stuart
No Centro de Curitiba, mais precisamente na Praça Osório, funciona o bar mais antigo de cidade. O Stuart abriu em 1904 e atualmente possui as mesmas mesas de 50 anos atrás. Mas os clientes mais antigos agora contam com uma grande televisão de plasma no bar. Tudo para acompanhar a reciclagem de clientes que agora passam por lá. O aposentado Risieri Moraes vai diariamente ao Stuart há 24 anos. Neste tempo não viu muitas mudanças na decoração do ambiente. Por isso mesmo a TV de plasma foi um "marco" no bar. "Faz uns cinco meses que colocaram isso aí", conta Moraes. O Stuart se tornou referência na cidade e é frequentado pela boemia curitibana da terceira idade.

Botequim
Aberto em 2001, o Botequim lembra os antigos bares das décadas de 40 e 50. Com piso feito de lajotas brancas e pretas, pequenas mesas de madeira e objetos antigos, o bar remete ao típico "malandro" comum nas noites cariocas. As especialidades são o chope e os petiscos como o escondidinho (purê de batata recheado com carne seca e gratinado com queijo), caldinho de feijão e espetinhos. A decoração "conversa" com o cardápio, tudo para fazer o cliente se sentir na primeira metade do século passado.
Mas não pense que só de antiguidades vive o Botequim. O chope é servido através de uma serpentina de 100 metros, que fica dentro de uma câmara de vidro, para que o cliente possa vê-lo chegando. Afinal, uma boa imagem enche os olhos de qualquer um. As novidades também estão no cardápio. As pizzas são quadradas, servidas em chapa quente e cortadas em quadrados. É impossível lembrar o passado sem um toque de modernidade.

Sláinte Irish Pub
Se os bares mais antigos aproveitam os anos de existência para conservarem a decoração da época, os mais novos também pegam carona nessa onda. Davi White, proprietário do pub Sláinte, trouxe da Irlanda um contêiner repleto de objetos antigos. Eles integravam a decoração do bar de seu pai. Com a morte do patriarca a decoração migrou para Curitiba. São bancos de ferro, cabine telefônica, lustres, quadros, bonecos, cartazes e quadros, todos irlandeses legítimos.
As tradições irlandesas também estão vivas no Sláinte. Há centenas de anos os habitantes das pequenas cidades da Irlanda se encontravam cada noite em uma casa. Como sabiam que iriam beber, penduravam a chave no teto, em pequenos ganchos, para que na saída se lembrassem de onde ela estava. O convite de inauguração do Sláinte tinha uma chave personalizada. Assim, os convidados entravam e deveriam colocar a chave em ganchos em uma parte especial do bar. Como hoje em dia ninguém deixaria uma chave no teto, pois qualquer pessoa poderia pegar, a antiga tradição foi mantida, de uma maneira mais moderna.

Armazém São José
Em 2002 o empresário Edicesar Mocelin decidiu abrir um bar na cidade, mas não sabia o local ideal para funcionar o estabelecimento. Quando encontrou uma casa de madeira construída há 120 anos, na Rua Bispo Dom José, decidiu abrir um bar temático com móveis e objetos que lembrassem um armazém. Assim nasceu o Armazém São José.
Foram necessários seis meses de pesquisa até que a decoração fosse finalizada. O produtor Marcelo Defante trabalhava no armazém e ajudou na preparação e escolha dos objetos. Ele visitou, junto com outras pessoas, diversas cidades da Região Metropolitana, como Colombo, Campo Largo e São José dos Pinhais, para procurar as peças. Um dos destaques fica por conta de uma antiga caixa registradora, feita em ferro, que fica logo na entrada do bar. Ela foi comprada em uma loja na curva do tomate. Outros objetos, como rádios do início do século passado, quando se iniciou a era do rádio, também estão disponíveis.

Armazém Santa Ana
Em 1934, no bairro Uberaba, nascia um armazém de secos e molhados chamado Santa Ana. Era possível comprar de tudo. O que o estabelecimento oferece hoje são coisas que não são encontradas com tanta facilidade. Tamancos de madeira, penicos, chouriço e muito mais. Quem entra pode até achar que está no interior. O cheiro característico dos mercados das cidades pequenas está presente no armazém. Com o passar dos anos ele também se transformou em bar e hoje reúne diversos apreciadores de uma boa cerveja e de uma característica cachaça, como a feita com uma erva polonesa chamada gebrusca.
Mas a modernidade também atingiu o Santa Ana. Há alguns meses o bar foi informatizado. Tudo para agilizar o atendimento e controlar o que entra e sai. Mas o cardápio continua com um pé no chão batido. No almoço o armazém serve joelho de porco, barreado, caldinho de feijão, carne de onça, moelinha e dobradinha, além de massas caseiras, como o pierogi.
Na decoração é possível encontrar bacia, balde, chaleira de ferro, chapéu de palha, fumo em corda, vassoura, tudo para vender. "Pelo menos um penico por dia é vendido", conta Ana Szpak, proprietária do armazém. Eles custam de R$ 20,00 a R$ 25,00. "O preço varia se é penico para um ou dois dias". Rádios antigos integram a decoração mas não são vendidos. Mesmo assim sempre aparece alguma pessoa querendo comprar as relíquias. "Não vendo mesmo. Eles são do tempo do meu pai", explica Ana.

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