Houve um tempo em que o Paraná não fazia parte do Brasil. No período imediatamente posterior ao descobrimento oficial das Américas, as terras hoje paranaenses pertenciam por direito à Coroa Espanhola e compunham a Província Del Guairá. Estas paragens eram habitadas principalmente por índios guaranis, milhares deles, que se dividiam em dezenas de aldeias. Na tentativa de convertê-los em cristãos e arrebanhá-los para seus propósitos, os espanhóis fundaram cidades e enviaram para cá religiosos que se embrenharam mata adentro usando os rios como estradas que os levavam aos pontos mais remotos.
  Assim, demovendo os muitos desafios do caminho, os jesuítas estruturaram, há exatos 400 anos, as reduções ou missões jesuíticas (pelo menos 15 núcleos, entre 1610 e 1628) com o propósito de levar a cabo a odisseia espanhola em terras sulamericanas. Como comparação, o primeiro núcleo urbano fundado pelos portugueses na faixa litorânea que lhes pertencia foi Paranaguá, em 1648.
  A história da primeira redução, literalmente, brota do chão que margeia o Rio Paranapanema, na zona rural de Itaguajé (extremo Norte paranaense). Basta meter a unha na terra fofa para resgatar pequenos fragmentos de uma cerâmica grossa e rústica. Os resquícios fazem parte da primeira redução jesuítica espanhola do Guairá, fundada em novembro de 1610 e batizada de Nossa Senhora do Loreto. Logo adiante, a 11 quilômetros de distância, foi erguida a segunda missão no Guairá com o nome de San Ignacio Mini, em homenagem à Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Essa redução fica em uma área protegida, no atual município de Santo Inácio. Ambas as reduções foram obra dos padres Simón Mascetta e Joseph Cataldino.
  No passado, embora fossem comuns a fome, privações e epidemias de doenças como gripe e varíola, a vida nas reduções seguia um ritmo organizado. Os jesuítas se dedicavam à evangelização mas também davam lições de artes e música, ensinavam ofícios, organizavam a agricultura e a criação de animais até então desconhecidos dos índios como cavalos e ovelhas. Estudiosa do tema, a arqueóloga Cláudia Inês Parellada, do Museu Paranaense, exemplifica que em Loreto existiu uma escola de canto coral, música e dança que alcançou reconhecimento em toda a Bacia do Prata.
  Atualmente, as duas primeiras reduções do Guairá se resumem a rastros das estruturas erguidas pelos jesuítas que abrigaram milhares de índios. A área pública de seis hectares onde existiu Nossa Senhora de Loreto foi invadida na década de 1940 e abriga atualmente pequenos agricultores.
  No centro do que seria Loreto e que tem maior quantidade de fragmentos reside o agricultor Lino Clemente Silva, que herdou as terras do pai, Sebastião Reis. Um dos filhos dele, Rodrigo Silva, conta que a família vive na região há mais de 50 anos, criando animais e cuidando de pequenas plantações. ‘‘Meu pai e meu avô contam que sempre acharam muitas coisas de cerâmica: caximbos, vasilhas, telhas’’, fala o rapaz. Dia desses ele encontrou uma camada de telhas ao furar um buraco de meio metro para fazer uma cerca. Um indício de que a história está a poucos centímetros abaixo da superfície.

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