Em 2005 os paranaenses foram supreendidos com a confirmação de um foco de febre aftosa no Estado. Depois de 10 anos considerado área livre da doença com vacinação, a aftosa caiu como uma bomba. Os prejuízos, embora estimados em R$ 4,7 milhões por dia, são incalculáveis e atinge a economia estadual como um todo. Mas a pior notícia ainda é a que está por vir. Não só o Paraná, mas o Brasil todo está sujeito à incidência de qualquer doença animal.
É praticamente impossível dizer que não houve falhas da defesa sanitária animal. Os números do próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) comprovam. Em 2001, os investimentos federais no setor foram da ordem de US$ 60 milhões; em 2002, as verbas caíram para US$ 20 milhões; em 2003, os recursos foram de cerca de US$ 9 milhões; e, no ano passado, atingiram os US$ 15 milhões. E esse dinheiro não foi usado somente na erradicação da febre aftosa.
Obrigatoriamente, a defesa sanitária animal tem que fazer o controle de sete doenças entre suínos, bovinos e aves. Na suinocultura, por exemplo, são a peste suína clássica e a Aujeszky; na avicultura há a New Castle e influenza; na bovinocultura, além da aftosa há o plano nacional de controle e erradicação da brucelose e tuberculose. Isso somente para citar as três atividades de maior impacto econômico e social. As três culturas rendem mais de US$ 6 bilhões por ano ao País somente em exportações.
''O agronegócio tem um lado social, que é a geração de empregos e renda, é auto-sustentável. Se não houver investimentos estamos dando um tiro no pé'', afirma o virologista Amauri Alfieri, professor da Universidade Estadual de Londrina. Na avaliação dele, se a avicultura e a suinocultura também forem atingidas por doenças que gerem embargos internacionais, os problemas sociais serão muito mais graves dos que os ocasionados em 2005 pela pecuária de corte porque essas culturas são dominadas por pequenos criadores que não teriam condições que absorver os prejuízos.
''Acredito que a aftosa neste ano (em 2005) deve servir de lição para o País, não podemos continuar a dormir em berço esplêndido. Em 2006, o governo terá que ter mais sensibilidade e fazer mais investimentos. Técnicos agropecuários têm que estar no campo, com carros, combustível e dinheiro para manutenção desses veículos'', comenta Alfieri. Além disso, é preciso investir no treinamento dos profissionais para que não ocorram novamente erros de diagnósticos. Também seria preciso investir em análises de risco de doenças no País.
Ainda na opinião do virologista, seria preciso criar um comitê técnico de apoio ao serviço público, composto por alguns especialistas. ''Temos que estar preparados, é preciso fazer simulações de doenças, fiscalizar fronteiras, portos e aeroportos e criar um fundo de indenização'', diz. Segundo ele, o controle de qualidade da vacina, no caso da aftosa, deve abranger também o controle de temperatura das ampolas até as distribuidoras. Atualmente, o Mapa faz testes apenas para medir a potência das vacinas.
Além disso, falta infra-estrutura laboratorial. As suspeitas de aftosa no Paraná já foram uma demonstração desse problema. Houve demora dos diagnósticos, faltam estruturas para a realização de exames mais específicos e sensíveis ao vírus. ''Falta também transparência nos resultados'', salienta Alfieri. Ele ainda sugere que nos casos de assentamentos, reservas indígenas, periferia e minifúndios a vacinação deveria ser encampada pelo governo federal. O virologista ainda afirma que há falhas na rastreabilidade do rebanho, cujo sistema, na sua avaliação, ainda não está plenamente consolidado.
Procurado pela reportagem, o chefe do Departamento de Fiscalização de Sanidade Agropecuária da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab), preferiu não se manifestar sobre o assunto. ''Por uma questão ética e de princípios, não quero entrar nesse aspecto. Buscar falhas ou culpados não é o caminho'', disse.

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