O padre é Pop
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Flora Guedes<br>Equipe da Folha 
O título de um antigo sucesso dos Engenheiros do Hawaii, O Papa é Pop, já previa os novos tempos do catolicismo, no Ocidente. Os sermões, missas, novenas e orações extrapolaram os limites e horários da Igreja: estão gravados em CDs, são transmitidos pelas rádios, TVs e Internet. Mudou em consonância com a figura do padre. O conselheiro e líder espiritual ganhou fama até onde os meios de comunicação alcançam. O boom, no Brasil, só para lembrar, veio com o carismático padre Marcelo Rossi, um misto de artista, cantor e sacerdote.
Em Curitiba, os católicos elegem seus padres estimados e mais populares, lotando as missas lideradas por eles, nas suas respectivas paróquias, mesmo que não sejam próximas do bairro onde moram. Ouvindo programas nas rádios ou conferindo shows religiosos superproduzidos, a predileção por eles só aumenta. Como é o caso do padre Reginaldo Manzotti, talvez, o mais pop de todos os padres populares de Curitiba. Pároco da Igreja do Guadalupe, no Centro, Manzotti tem tantas funções que quase não lhe sobra tempo para dormir.
Às 6 horas, ele faz uma oração na Rádio Evangelizar, criada há dois meses. Depois, apresenta ao vivo o programa Experiência de Deus, com transmissão em 174 rádios nacionais. A maratona só encerra à meia-noite com o Terço Mariano. Ainda realiza a Missa na Igreja do Guadalupe, ao meio-dia, um programa diário na TV Transamérica e a Santa Missa exibida pela Paraná Educativa. O padre já lançou três CDs.
Não é simplesmente fazer um CD ou programa de rádio, o objetivo é resgatar o católico turista que está distante da Igreja, que foi batizado mas não evangelizado. Sou uma pessoa pública e tudo acaba se agregando. A luz atrai as pessoas e eu sou luz, o reflexo da luz de Deus, raciocina. Sou popular, seria falsa modéstia dizer que não. Mas as pessoas vêm a mim num primeiro momento. Essa obra é Deus, minha função é conectar o povo com Deus, diz o religioso, que em janeiro promove a 1ªRave Católica de Curitiba.
Duas vezes por mês o padre viaja pelo Estado onde faz espetáculos que ele chama de Missa e Show e encontra uma legião de fãs. É preciso ter uma vida de oração, boas leituras, estar perto de pessoas do bem e discernimento. Minha proposta é evangelizar, não cobrar cachê, afirma ele, informando que abriu mão dos direitos autorais dos CDs. Não me comporto como um pop star. Viajo de ônibus com a banda, viagens de até 36 horas, me alimento de sanduíches. Sou um artista barato. Não vou a lugar que tenha bilheteria, sacramento não se vende, é um princípio, resume.
Talento e carisma
O padre Luiz Alberto Kleina, pároco-reitor do Santuário de Nossa Senhora do Carmo, no Boqueirão, assume sua popularidade e que as pessoas lhe procuram para conversar e pedir que celebre casamentos e batizados. Deus deu a graça do talento e carisma para muitos padres e alguns acabam se sobressaindo. As pessoas convergem o olhar para determinado sacerdote que é famoso, assediado, mas isso é uma expressão natural delas. Nós temos que ser humildes e serenos para acolhê-las, livres do espírito da fama, acredita Kleina.
O sacerdote não tem essa visão de querer aparecer, ele não pode ofuscar a imagem de Cristo. A nossa missão é reforçar a imagem de Deus perante a comunidade. Acho positivo as pessoas demonstrarem satisfação nas missas, devoção e buscarem os padres para um encontro com Deus. Não se pode idolatrar o padre, diz com firmeza o religioso, que também apresenta um momento de oração e espiritualidade no programa do Luiz Carlos Martins, na Banda B, e duas missas que são exibidas pela CNT e TV Transamérica, aos domingos.
Missa interativa
O espírito jovial e inovador do padre Dirson Gonçalves, de 35 anos, reitor do Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Alto da Glória, foi o suficiente para torná-lo querido pela comunidade. Depois que ele assumiu o santuário foi visível a mudança. Ele conquistou o povo pela espiritualidade, simpatia e também pela segurança, embora seja muito jovem. Ele canta muito bem, fala muito bem e é dinâmico, promoveu mudanças que movimentaram a Igreja, atraiu mais gente em outros dias da semana, fora as novenas que atraem 30 mil pessoas, justifica o músico Vinícius Gasparini, de 53 anos.
A Missa do Santíssimo, às quintas-feiras, implantada pelo padre Dirson é considerada uma das grandes obras do religioso. Mais de mil pessoas comparecem à celebração. Na Missa eu provoco as pessoas, ela é interativa. Gosto de questioná-las, saber como estão se sentindo, ou mesmo levá-las a sentir-se. O padre é o elo entre Deus e as pessoas, explica ele. Tenho uma postura de ser mais próximo, de ser amigo. Minha vida é toda dedicada ao santuário, passo o dia atendendo a comunidade. Hoje, a pessoa escolhe a igreja que freqüenta de acordo com o santo ou padre que se identifica mais.


