Ladário-MS - Juliana, mãe de seis filhos, suplica por algum remédio que alivie a dor dos meninos. Relata ao médico que, por vezes, uma forte dor de estômago arrebata toda a família. Numa região de alta incidência de úlcera gástrica, o médico quer saber quando essas dores aparecem. A mãe, entre a vergonha e a ignorância, responde que era quando ficavam sem comer e insistia na existência de um comprimido que pudesse curar a mais dolorida das ''doenças'': a fome.
História que marcou a vida do enfermeiro Alessandro Vicente Silva, um militar de 28 anos, que faz parte da tripulação do Navio de Assistência Hospitalar (NAsH) Tenente Maximiano, da Marinha do Brasil, o qual leva ajuda humanitária à região da Bacia do Rio Paraguai, no pantanal do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul.
Em atividade desde março de 2009, o navio já conseguiu progressos nas condições de saúde da população ribeirinha. A reportagem da FOLHA navegou durante sete dias, subindo o Rio Paraguai, para retratar como vivem esses brasileiros carentes de saúde, de transporte, de energia elétrica e de saneamento básico e mostrar como os profissionais de saúde, formados em abastadas regiões do País, encaram essa realidade.
No Pantanal, as distâncias não são tão grandes quanto na região Amazônica, no entanto, o isolamento e as carências são as mesmas. ''Se o navio não passasse continuaríamos com dor, doentes. A passagem é muito cara para ir até a cidade'', relata Fátima dos Moraes, 24, carregando a filha gripada e febril.
A pobreza da população ribeirinha surpreende, numa região com o turismo consolidado e próspera no agronegócio. ''A maior parte das doenças são aquelas relacionadas às baixas condições socioeconômicas, diarreia e muita doença de pele, pois os banhos são tomados no rio, não há saneamento básico'', desabafa o médico Carlos Eduardo Santos Borin Garcia, 28, que ocupa patente de segundo-tenente.
As experiências da ribeira transformam a vida e a relação profissional de médicos e dentistas. Muitos são recém-formados. Alguns estão na Marinha devido ao serviço obrigatório como oficias temporários.
''Ver a realidade da população que não tem acesso a saúde. Aprender a fazer a Medicina sem muitos recursos, atender sem meios de exames complementares para poder elucidar melhor o diagnóstico. Atender com aquilo que temos'', essa é lição mais valiosa para o oficial-médico Jaison Monge Benites, 27.
Já o segundo-tenente Borin afirma que todo médico deveria passar por essa experiência. ''Começamos a enxergar a vida de outra maneira. Aqui eles ficam felizes quando conseguem pescar um peixe para o almoço.''
Alguns atendimentos são perpetuados na memória. O oficial não esquece quando diagnosticou sete membros de uma mesma família acometidos por uma doença de pele. As lesões ulcerosas já deformavam seus rostos e corpos. A moléstia não existiria se tivessem um pedaço de sabão para tomar banho.
Quanto às condições da saúde bucal, quando são avaliadas não é difícil prever o resultado. As cáries são as campeãs. Em algumas casas mais pobres é feito o uso da escova coletiva. ''O que mais me marca é atender a uma criança sem dentes ou com todos os dentes cariados e poder melhorar as condições'', comemora oficial-dentista Pedro Henrique Katurchi Mendes.
Surpresa maior teve o tenente-dentista Eduardo Ruiz Sulzer Filho, 29, formado em Maringá, ''Nunca esperei fazer esse tipo de atendimento e nem achava que isso era feito.''

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