Quem nasceu na era dos shoppings centers, talvez não tenha a dimensão da importância que as galerias de lojas representam para o comércio de uma cidade. Local de passagem diária de muitas pessoas, elas agregam as vantagens de um centro comercial e de uma loja de calçada. Curitiba tem várias delas, a grande maioria existe há décadas. As mais famosas ligam importantes ruas do centro da cidade. Muitas assistiram seu movimento cair com a instalação dos shoppings, mas elas sobreviveram até hoje com um vigor que atravessa os anos.
Uma das galerias mais tradicionais da cidade, inaugurada em 1958, fica embaixo do edifício Tijucas, em frente à Boca Maldita. Nela não existem espaços vagos, todas as 18 lojas estão ocupadas. Segundo seu síndico, Oscar Ferreira, outras galerias mais bonitas, como Asa e Minerva, perdem em movimento para a Tijucas, pois sua localização é impar. A disputa pelos espaços comerciais é grande. ''As lojas não param vazias, todo dia são feitas várias consultas para alugar ou comprar'', conta Ferreira.
O aluguel gira em torno de R$ 2.500,00 e o condomínio por volta de R$ 400,00, mas segundo o síndico, o valor compensa. ''Todos os lojistas que entraram só sairam por motivos de ordem particular, não por falta de movimento'', afirma.
Antes mesmo do edifício Tijucas ser construído, a loja Eletrolândia já existia na Rua Ermelino de Leão, ao lado do prédio. Um dos proprietários, Milton Weiser, está no ponto há 61 anos, depois do edifício pronto, expandiu seu negócio para dentro da galeria. A única vez que pensou em deixar o local foi quando vieram os shoppings centers, mas desistiu da idéia, considerando a tradição que a loja gozava.
Tradição e modernidade dividem espaço hoje na Galeria General Ozório (antiga Galeria do Comércio). Com diversas lojas antigas, a galeria experimentou um período negro, com episódios de insegurança e muitos comerciantes fechando as portas. ''Ela ficou uns 8 anos abandonada'', conta Antenor Demeterco Neto, 31 anos, atual administrador da galeria. Segundo ele, neste período seu avô, Antenor Demeterco, tinha dificuldades em gerir o local devido à idade avançada.
Atualmente a galeria passa por uma reforma intensa, até agora foram investidos R$ 120 mil em melhorias que incluem uma praça de alimentação, instalação de banheiros, forro novo e contratação de seguranças. ''Queremos dar à galeria a concepção de um shopping center, com um 'mix' de produtos e serviços e espaço para eventos culturais'', conta Antenor Neto. Segundo ele, diariamente passam pela galeria - que liga a Praça Ozório à Rua Carlos de Carvalho - 5 mil pessoas. Aproveitar este potencial é a meta do novo administrador, que espera concluir as reformas em 2 anos.
A previsão anima Márcia Stanczyk, proprietária de uma loja de guarda-chuvas na galeria. Ela conta que há algum tempo havia roubos e presença de ''maloqueiros'' no local. Ela prevê um aumento no aluguel após a conclusão das reformas, mas não pensa em deixar o ponto. Depois de 27 anos no local, a loja ficou conhecida. ''É só chover que o pessoal lembra'', conta Márcia.
Mas nem sempre o tempo de loja alivia a falta de movimento. O comerciante Pedro Bandalize afirma que esta é a pior fase que já passou à frente de sua lanchonete na galeria do Edifício Asa. ''Hoje tá quase metade do movimento que era'', lamenta. Na sua avaliação, isso se deve à grande quantidade de salas comerciais vazias no prédio. Há 38 anos no ponto, ele passou a administração ao filho, e conta que só deixaria o local para se instalar em um shopping.
O síndico do Asa, Roberto Braga, discorda do comerciante quando o assunto é movimento. ''A gente fica perplexo com a quantidade de pessoas, parece um formigueiro'', compara. Segundo ele, mais de 4 mil pessoas sobem diariamente pelos elevadores do Asa. Tamanho volume causa preocupação com o excesso de movimento, não com a falta. ''Mês a mês aumenta o número de pessoas que passam pela galeria'', diz Braga.

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