O mundo na caixinha de fósforos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de dezembro de 2007
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Em 1986, no extinto jornal Correio de Notícias, o saudoso poeta Paulo Leminski classificou Hélio Leites (na época Hélio Lete) como um ''mestre zen''. O motivo seria o apreço e a visão privilegiada do artista pelas coisinhas insignificantes, mas indispensáveis, como botões por exemplo. ''Pequenas coisas da vida que a vida não deixa que a gente perceba.'' Logo que adentrou à casa do poeta, Hélio teria lhe perguntado quantos botões ele estaria usando naquele exato momento. Leminski confessa que ''embasbacou'' diante da questão.
Assim é o trabalho desse mago dos botões, das caixas de fósforo, dos palitos de sorvete, e do que mais pintar: encher de significado aquilo que as pessoas consideram insignificante. O tamanco velho vira presépio, o tubinho de tinta vazio vira um ratinho, a caixa de fósforo vira tudo que você imaginar. ''Estou trabalhando em uma campanha pelo desaquecimento global'', diz ele mostrando um pavão miniatura feito de palitinhos. ''Se não tiver mais fósforo como é que eles vão acender as coisas?'', pondera.
Essa simplicidade de retratar o mundo através das coisas, dando sua versão cômica da realidade às vezes trágica, é uma das marcas desse artista, que expõe seus trabalhos no próprio corpo, como no caso do Museu Casa do Botão, uma ''roupa'' que comporta vários botões temáticos, como um feito de espelho, ''para o político que não se enxerga''.
Em outro trabalho que expõe no próprio corpo, a roupa tem várias caixinhas de fósforo temáticas. Uma guarda um quadro de Van Gogh, outra uma poesia de Wilson Bueno. ''Cria o cenário e ao mesmo tempo uma linguagem'', explica. Na cabeça, além do imenso topete branco, o boné é uma instalação à parte, cada um tem um tema diferente, como a homenagem à ginasta Daiane dos Santos, construídA sobre um boné velho do açúcar Diana. Nele, uma bonequinha dá piruetas sobre um tablado.
Hélio Leites não lembra direito quando começou a se interessar pelo artesanato, acha que foi por volta dos sete anos. Antes de abraçar a botanica (arte de trabalhar com botões), ele trabalhava como bancário ''Eu carimbava cheque devolvido de gente que eu nem conhecia'', lembra. Hoje, em todo trabalho que faz, Hélio põe um fio branco de seu topete. Esse detalhe, segundo ele, confere às peças seu valor monetário. ''Se você tivesse um cabelo desse, você também não ia vender?'', indaga o mestre zen.


