O mundo colorido das drag queens de Londrina
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sábado, 10 de setembro de 2005
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
Robsleno da Silva, 24 anos, acorda todos os dias pouco antes das 9 horas para tomar café e se dirigir até um salão de beleza no Centro de Londrina, onde trabalha. O emprego, segundo ele próprio, é uma das principais fontes de renda garantindo cerca de R$ 400,00 por semana. Com o salário, ele paga cursos que realiza dentro das áreas de interesse dele, e colabora com o pagamento das contas na casa dos pais, onde ainda mora. ''É um emprego tranquilo. Gosto muito do que faço porque trabalho com bom humor'', conta.
No turno inverso do dia é a vez de Larissa Point entrar em ação. A garota é precoce: tem somente 16 anos, mas é dona de educação e finesse dignas de uma dama da corte inglesa, a ponto de considerar-se até mesmo um pouco mimada. A precocidade se expõe também com o trabalho. Afinal, não é qualquer adolescente que fatura R$ 2 mil mensais com espetáculos de dança e trabalhos como hostess (recepcionista) em festas e casas noturnas. ''Também gosto muito do que faço. Bom humor e educação são meus pontos fortes'', descreve a menina.
Ao ler acima a pequena descrição da vida profissional destas duas pessoas, qualquer um pensaria que a única semelhança entre Robsleno e Larissa resume-se somente à alegria com que descrevem os empregos, não fosse pelo detalhe de que Robsleno e Larissa são a mesma pessoa. Ou melhor: Larissa Point é a outra profissão de Robsleno da Silva, uma das oito drag queens atuando hoje em Londrina, uma cidade na qual, como elas mesmas fazem questão de afirmar, já reconhece a profissão como um trabalho de cunho artístico o que de fato, é.
Não é fácil trabalhar como drag queen. Além de enfrentar problemas óbvios, como o preconceito, os profissionais ainda buscam espaço numa cidade que tem poucas opções para este tipo de trabalho, que exige bom investimento de tempo e dinheiro. Ser drag queen é, antes de mais nada, um exercício de investimento e paciência. Nada menos do que R$ 1 mil e pelo menos duas horas de ''montagem'', como elas gostam de dizer, são necessárias para adquirir o visual colorido e fashion adotado pela classe.
Como em qualquer outra profissão de caráter artístico, as pessoas que se envolvem com o trabalho geralmente foram seduzidas pelo glamour. Foi o caso de Robsleno e de Julius César Viana, 26 anos. ''Já conhecia este trabalho pela tevê, mas tive a oportunidade de me aproximar quando passei a frequentar uma boate onde várias drag queens se apresentam. Quando comecei a me ''montar'', era só de brincadeira'', conta Julius. ''Fui convidado pelo pessoal desta mesma boate. Achavam que eu levava jeito'', afirma Robsleno.
O que começou como brincadeira hoje se tornou profissão, a ponto de Robsleno faturar, como drag queen, tanto quanto ganha no salão de beleza, num emprego considerado tradicional. Larissa Point, a adolescente mimada, mas educada, cobra até R$ 500 para se apresentar em casas de shows, de Porto Alegre (RS) a Cuiabá (MT).
No caso de Julius, o envolvimento com a profissão chegou a tal ponto que a drag queen Dandara Tompson virou a única fonte de renda do rapaz. Para isso, no entanto, ele precisou diversificar, apresentando-se não só como hostess de casas de shows, mas também com telegramas animados e em festas, como despedidas de solteiros, casamentos e aniversários. ''Em meses bons, consigo ganhar até R$ 1,5 mil'', contabiliza Dandara, uma morena de quase 2 metros de altura e 20 anos. Julius até dá dicas para quem se interessou pela garota. ''Dandara é jovem, mas já se aposentou como modelo. Agora o que ela quer é ser apresentadora de TV''.
Tanto Dandara quanto Larissa comemoram a boa fase pela qual a profissão passa na região de Londrina. As duas afirmam que são convidadas para até cinco eventos por mês, o que garante um bom dinheiro. ''A quantidade de festas para as quais somos chamadas é grande para uma cidade do tamanho de Londrina'', conta Dandara. ''E outras cidades da região também estão aderindo à moda'', completa.
Larissa e Dandara dão um aviso para quem acha que a renda das drag queens é alta e basta por meia-calça e peruca para faturar. O mercado é tão competitivo quanto em qualquer outra profissão. ''Em Londrina, acho que não cabem mais drags. Oito já está de bom tamanho'', lembra Dandara. ''Além do mais, não adianta entrar na onda pelo modismo. Precisa ter talento para isso'', completa Larissa.


