Em São Félix do Araguaia (MT), todos o conhecem. Afinal, dom Pedro Maria Casaldáliga Plá está lá desde 1968, quando foi sagrado bispo e iniciou sua luta em prol dos mais fracos. Numa casa simples, sem muros ou portas e com as paredes cheias de pequenas lembranças, dom Pedro recebe constantes visitas de índios, peões e jornalistas de várias partes do Brasil e do mundo. Aos 78 anos, com a saúde debilitada, foi afastado do comando da Prelazia que engloba 15 municípios, mas permanece lúcido e entusiasta, como mostra a entrevista a seguir.
FL: Como foi sua experiência de reforma agrária em São Félix?
Dom Pedro: Quando chegamos aqui, em 1968, começamos a chamado de fiscais. Então, percebemos que estávamos numa fogueira. O que acontecia nesta região de Barras do Garças até o Pará, estendia-se para toda a Amazônia legal. Quando fui sagrado bispo, em 23 de outubro de 1971, enterrei um peão sem nome e família. A questão da terra atingia os índios, os posseiros e os peões. Era um regime de escravidão numa terra de ninguém, onde impera a lei do mais forte. Na época, escrevi uma carta ao arcebispo de Goiânia, dom Fernando Gomes dos Santos, pedindo que a Igreja encontrasse uma saída para aquela situação.
Essa iniciativa foi uma das sementes que ajudaram a criar a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), no começo da década de 70. Intensificamos uma luta contra um drama histórico. Afinal, o Brasil tem cinco séculos de latifúndio. Na época, além de enfrentarmos a resistência dos fazendeiros, fomos perseguidos pela ditadura militar. Respondi a vários inquéritos e fui tachado de comunista.
FL: Houve algum avanço desde então?
Dom Pedro: Em alguns aspectos, avançamos. Em primeiro lugar a consciência. Hoje, as pessoas sabem que a problemática do campo afeta a cidade. Também aumentou a consciência sobre a perversidade estrutural. Acumulação e exclusão, por um lado. Por outro, a monocultura, que é antinatural. A natureza é pluricultural.
FL: Como está o papel da Igreja frente à reforma agrária, com o arrefecimento da Teologia da Libertação?
Dom Pedro: O papel da Igreja Católica frente à questão da terra deve ser profético. De estímulo, mediação. Hoje, há grupos autônomos fortes. O MST, por exemplo, em parte, surgiu da própria CPT. O João Pedro Stédile, coordenador nacional do movimento, reconhece isso com frequência. Portanto, a luta da Igreja está presente.
FL: Algumas pessoas da região de São Félix dizem que a Prelazia é radical e contra o progresso na questão da terra. Como o senhor vê essa crítica?
Dom Pedro: É preciso deixar claro de que lado se está. Já me chamaram de tudo, comunista, terrorista. Os militares diziam que eu estava envolvido na guerrilha do Araguaia, em 1972, quando houve embate contra o Exército. Advertiam a quem chegava: cuidado com a Prelazia, cuidado com o bispo. Agora, claro que sou contra abrir uma estrada na Ilha do Bananal, como querem alguns, porque lá é território indígena.
FL: E a reforma agrária no Governo Lula?
Dom Pedro: Infelizmente, não houve grandes avanços. Reforma agrária e causa indígena estão bastante paralisadas. A bancada ruralista tem um poder imenso. Lula repete os gestos de bombeiros que ocorriam no Governo de Fernando Henrique Cardoso. O atual governo atende certas emergências para evitar conflitos. Mas reforma agrária de verdade, com distribuição de terras e reforma agrícola, não tem ocorrido. O que se faz na reforma agrária, se faz na marra. O MST faz reforma agrária...
FL: Como o senhor vê ações do MST, consideradas violentas, como a destruição de uma plantação de eucalipto da empresa Aracruz no último dia 8 de março no Rio Grande do Sul?
Dom Pedro: O MST é um golpe bom e necessário à propriedade privada acumuladora. Essa irresponsabilidade consciente ou inconsciente tem sido respaldada até por setores da Igreja. Dizem que é a sagrada propriedade privada. Esquecem de que a grande propriedade privada acumuladora não é um direito absoluto. É um direito relativo. Não é possível aceitar que uma pessoa ou uma empresa tenha 200, 300 mil hectares de terra. Todo latifúndio é iníquo. Inclusive, o produtivo. Porque acumula e exclui. Além de ''ecocida'' porque destrói a natureza. O MST é um movimento providencial. Se não existisse, deveria ser criado. Pode ter tido alguns excessos, mas destruir uma produção transgênica é necessário. O capital só responde quando é atingido como capital.
Donizete Oliveira é estudioso da questão agrária e esteve, em abril, com Dom Pedro Casaldáliga, visando traçar amplo perfil deste personagem fundamental na história dos movimentos sociais no Brasil.

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