Quando passa pelas ruas, o fusca-trenó de Ori Stoco vai recebendo buzinadas e acenos alegres dos transeuntes. O motorista devolve a gentileza soando um sino e jogando balas para a multidão. Desde 1985 ele e a mulher, Maria Inês Stoco, levam um pouco de alegria a quem não tem muito. São crianças carentes e portadoras de necessidades especiais de Curitiba e região metropolitana que recebem todos os anos a visita do Papai Noel, que lhes leva balas e brinquedos.

Ori é o motorista do bom velhinho. Com seu quepe vermelho ele conduz não só o trenó, como um projeto de solidariedade e amor pelo próximo. Durante o ano ele e a mulher arrecadam e consertam brinquedos usados para presentear a criançada. A recompensa? A leveza de espírito e a certeza de que está tornando a vida desses jovens um pouco menos sofrida.

Enquanto fazia uma visita à Fundação Ecumênica, em Curitiba, Ori concedeu a seguinte entrevista à FOLHA DE LONDRINA.

FOLHA DE LONDRINA - Como começou esse projeto de levar presentes e doces para crianças carentes?

Ori Stoco - Começamos no movimento familiar cristão em 1985. Levamos para as crianças do movimento e em seguida passamos a enfeitar o carro e sair pelas ruas de Curitiba jogando bala pra criançada, que o movimento doava pra gente. Aí fomos alterando, muitas vezes trazendo papais noeis. Com o papai noel Paulo Afonso Schwartz nós fizemos muitas vezes papai noel em entidades, como essa entidade ecumênica, onde fazemos esse trabalho há mais de 15 anos e outras entidades carentes também, como Apaes, centros municipais de educação infantil de Curitiba, de São José dos Pinhais, de Pinhais, orfanatos, creches. É um trabalho totalmente gratuito, graças a Deus nós temos o patrocínio do pessoal que ajuda a gente na gasolina, nas balas. No ano passado jogamos 980 quilos de bala em Curitiba. Os papais noeis também fazem voluntariemente esse trabalho. Em algumas empresas nós fazemos algus eventos para ressarcir os danos do carro.


FOLHA - E que carro é esse que o senhor reformou?
Stoco - Esse é um fusca conversível. Eu fiz ele em 1983, daí em 85 nós já começamos a circular com o Papai Noel.


FOLHA - Como é a preparação para esse trabalho ao longo do ano?
Stoco - Quando chega o mês de julho, agosto, a gente já começa a procurar os amigos pra ajudar a gente com a pintura do carro, que risca muito. A gente vai preparando o carro e as renas, sempre trabalhamos com a repintura delas, enfim uma manutenção do carro que começa em agosto. Vamos também conversando com as entidades pra reconfirmar com aquelas que querem a visita do Papai Noel.


FOLHA - E durante o resto do ano é feito algum outro tipo de ação solidária?
Stoco - O principal mesmo é próximo do natal, mas eu sou presidente de um coral muito antigo de Curitiba, o primeiro Coral do Paraná, e através dele nós fazemos uns eventos beneficentes também. É o coral São Pio X, com mais de 70 anos de história.


FOLHA - E a sua esaposa, como foi a participação dela na elaboração desse projeto do carro do Papai Noel?

Stoco - Ela é a principal pessoa. Ela tá me ajudando muito, nós recebemos muitos brinquedos usados, bonecas sem roupa sem nada e durante o ano ela confecciona as roupas e eu, na medida do possível, arrumo os carrinhos, limpo.


FOLHA - E quem doa? Empresas, pessoas físicas?
Stoco - Tem pessoas físicas e jurídicas, mas a maioria são as crianças que vêm até o nosso portão doando brinquedos que elas não usam mais, brinquedos bons até. É impressionante o espírito de doação da criança. Elas sabem o trabalho que a gente faz na periferia de Curitiba. Além das creches e orfanatos, fazemos muito trabalho na periferia, por exemplo, sábado que vem vamos para a favela de Três Pinheiros lá perto de Campo Magro.


FOLHA - E qual é a recompensa desse trabalho para o senhor?
Stoco - Espiritual. Essa é a principal, é você se sentir leve. Ver que o que você reclama da vida não tem sentido, porque espiritualmente você ganha tudo da vida e muitas vezes não sabe reconhecer.


FOLHA - Já houve alguma ocasião em que, diante de alguma dificuldade, você pensou em parar com esse trabalho?
Stoco - Já tive dificuldades, mas Deus é sempre benevolente com a gente. As balas e os brinquedos nós tinhamos muito pouquinho no começo mas pensamos: ''Vamos começar, vamos começar que vai vir''. E já veio na primeira semana, na segunda, na terceira e foi aumentando, aumentando e sempre, graças a Deus vem aquele espírito bondoso que ajuda muito a gente.


FOLHA - E como você avalia o espírito natalino das pessoas hoje?
Stoco - Está melhorando muito essa parte espiritual, inclusive no nosso carro você pode ler ''Natal sem Jesus não é Natal'', e Natal é com Jesus, esse é nosso espírito, estamos tentando fazer com que o papai noel seja aquela figura carismática, mas não o principal objetivo, o principal objetivo é Jesus é o menino Jesus.

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