O mito está de volta
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 1997
Mariela de Castro Santos 
Raphael VieiraO vestido cor de salmão, sem mangas, tem écharpe sobre os ombros e é da década de 40. A peça é do acervo da Bastidores, especializada em trajes de épocaSofisticada, elegante, extravagante, perua, polêmica, amada e odiada, com um quê de santa e outro de prostituta, segundo conta a história. Difícil escolher um só adjetivo para caracterizar Evita, mulher do ditador argentino Juan Domingo Perón, que ressuscita no imaginário popular com o lançamento do filme homônimo de Alan Parker, protagonizado por Madonna.
Com estréia marcada nos cinemas brasileiros para a próxima sexta-feira, Evita traz à tona o mito que marcou a década de 40. Mulher de forte personalidade, mas que esbanjava glamour e feminilidade, Eva Duarte Perón criou um estilo próprio de ser - nada discreto, deve-se dizer.
Louca por vestidos e jóias (seu guarda-roupa abrigava 400 vestidos e 600 pares de sapatos, e uma fortuna em pedras preciosas e ouro), a primeira-dama não os cobiçava por seu valor intrínseco, mas muito mais por amor ao espetáculo.
Estar na ribalta sempre foi seu grande sonho. De origem humilde, queria ser estrela do rádio e do cinema. Aos 15 anos, fugiu de casa com um amante cantor de tango e, depois dele, não hesitou em usar sua beleza para subir. Conheceu o promissor e mulherengo coronel Juan Domingo Perón num jantar beneficente, e um ano depois se casaram.
Ícone de seu tempo, Evita foi considerada pela revista Time em 1947 a primeira-dama mais bonita de sua época. O gosto pela política e o poder transformaram-na no braço direito do marido, representando o país no exterior, dando direito de voto às mulheres e organizando um sistema de auxílio aos pobres que funcionava de fato. Sua determinação para atuar em ações sociais e o magnetismo que exercia sobre o povo renderam-lhe fama e popularidade. Ela não queria ser esquecida. E de fato não foi.
Quando ela morreu de câncer no útero, em 26 de julho de 1952, as ruas ficaram apinhadas de gente que se sentia subitamente órfã. Perón encarregou o anatomista Pedro Ara de embalsamar o corpo para ser exposto à nação em uma redoma de vidro. Dois milhões de pessoas postaram-se em imensas filas para vê-la descalça no caixão.
Para Evita, uma mulher deve saber desde o início quem é a sua escolha, quem interessa e quem não interessa. Sua ascensão social foi seguida pelo refinamento de atitudes e um visual mais elegante. Os cabelos alourados sempre presos em coque conferiam-lhe um ar aristocrático. Envergava tailleurs Dior e Chanel - muitos em pied-de-poule, com detalhes em veludo - casacos de vison e vestidos de gala feitos pelo costureiro Jamandreu. Sapatos de salto, saias justas, perfume Chanel nº 5 e pérolas completavam o modelo nacional de moda e comportamento.


