O Michelangelo curitibano
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Diogo Cavazotti<br>Equipe da Folha 
Uma casa no Campo Comprido, em Curitiba, abriga uma grande riqueza em mármore. Calma! Não pense que o morador desta residência é milionário. A riqueza está nas obras de arte feitas pelo aposentado Amilton Gabardo, 75 anos. Portanto, trata-se de uma riqueza cultural. Elas até poderiam ser vendidas por um bom preço, mas ele não tem interesse em comercializá-las. Produz as peças por hobby, para passar o tempo.
No quintal da casa onde o simpático Gabardo mora existem diversas mandalas no chão, feitas com mármores de diversas cores. Algumas delas possuem atrações especiais. Mas para entender esta história é necessário voltar alguns anos na vida do artista.
A família de Gabardo possuía uma marmoraria. Desde pequeno ele aprendeu a mexer com granitos e mármores, fazendo soleiras, pisos, bancadas, molduras e fachadas de casas e empresas. Foi quando o artista espanhol Leopoldo Blando Torreadrado veio para Curitiba trabalhar em uma fábrica de rochas. A parceria não deu certo e foi convidado para trabalhar na empresa de Gabardo. Durante os cinco anos que estiveram junto ele aprendeu muito com o artista.
Quando Torreadrado fez o busto de Luís Vaz de Camões, que atualmente está no térreo da Biblioteca Pública do Paraná, o ajudante foi Gabardo. Em seguida conheceu outro artista italiano que o ensinou a fazer peças com torno, como copos, xícaras e bolas em mármore e granito.
O próprio pai dele também era um artista e chegou a fazer esculturas que hoje estão em importantes espaços públicos. Uma das obras está na Rodoferroviária de Jaraguá do Sul (Santa Catarina).
Os anos passaram e Gabardo se aposentou. Com tempo livre ele resolveu colocar em prática os ensinamentos adquiridos ao longo da vida. Assim, começou a produzir arte em mármore. Uma delas está no jardim do artista: uma mandala de aproximadamente dois metros de diâmetro. No interior ele colocou uma estrela de Belém e bem no meio uma grande bola também de mármore, que pesa 200 quilos. Gabardo aciona um botão e a bola começa a girar em cima de um eixo. O movimento é feito através de fortes jatos de água vindos debaixo através de uma engenharia especial.
O segredo é a pressão da água, revela. A inspiração para realizar a obra foi quando o artista viu pela televisão, durante a Copa do Mundo na Alemanha, algo semelhante. Projetou em casa e agora faz sucesso entre a família. Eles gostam de mostrar as obras para os amigos e chegam a tirar foto, comemora.
Atualmente Gabardo não está produzindo nenhuma peça, mas deseja fazer a reprodução da Santa Ceia em mármore. Mas não igual ao do Leonardo da Vinci. A posição dos apóstolos seria diferente, conta.
Não são só as mandalas que fazem parte da arte feita pelo aposentado. Quadros que reproduzem o busto de Jesus Cristo decoram a sala do artista. Um dos quadros demorou um ano e meio para ficar pronto, já que só podia trabalhar na obra nas horas de folga. Mas ele garante que é possível concluir em apenas um mês e meio, desde que a dedicação seja exclusiva.
Inspiração
Gabardo acredita em discos voadores. Se você não acredita tudo bem. Mas eu já vi dois discos. Saiu até na televisão e em alguns jornais, conta. Ele leu muito sobre o assunto e conta detalhes sobre a vida fora da Terra. Segundo o artista, as viagens interplanetárias dos alienígenas duram oito horas. Enquanto que os humanos demoram até um ano e meio para mandar um robô e conseguir imagens de outro planeta. É possível ver em algumas obras no jardim da casa do artista a influência destes estudos sobre a vida fora da Terra.
Mesmo com todos estes detalhes sobre os extra-terrestres, Gabardo também crê em Deus, Buda e Jesus. Ele é espírita e a visita que faz semanalmente no Centro Espírita Casa do Sol Nascente alimenta a imaginação e faz com que a vontade de criar novas obras aumente ainda mais.
O mestre dos mármores nunca ensinou a prática de lidar com as rochas. Ele diz que sabe fazer, mas não ensinar. Não me considero um artista, mas sim um teimoso. Artista só os que estão nas páginas dos livros, opina. Agora que estampa a página de um jornal, quem sabe se convença de que o trabalho que realiza também seja arte.


